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Cinco coisas que aprendemos com feministas sobre doação


Ilustração do Yearbook 2022 da Prospera, Rede Internacional de Fundos de Mulheres


Por Renata Saavedra, pesquisadora, jornalista e coordenadora programática e de comunicação da @Bem-Te-Vi Diversidade, e Vanessa Lucena, relações públicas e coordenadora executiva da Bem-Te-Vi Diversidade, integrantes do Movimento por uma Cultura de Doação.

Nós tivemos a sorte de conhecer o mundo da filantropia a partir de um ponto de vista muito especial: o ecossistema de fundos de mulheres. Fundos de mulheres são organizações que mobilizam e doam recursos para grupos de mulheres, meninas e pessoas trans no mundo todo, fornecendo-lhes recursos financeiros e técnicos e fortalecendo redes para concretizar sua visão de justiça social. Mais de 40 deles se reúnem na Prospera, uma potente rede global.

Os fundos de mulheres são extremamente diversos, mas se encontram em muitos princípios e práticas que nos inspiram como trabalhadoras do campo da filantropia, e que tomamos como diretrizes em nossa busca cotidiana por uma cultura de doação feminista, decolonial e regenerativa. Destacamos aqui cinco desses aprendizados:


1) Filantropia e doação são questões feministas

A filantropia feminista é mais do que financiar “questões de mulheres”. De acordo com o Fondo Centroamericano de Mujeres, da Nicarágua: “A filantropia feminista não é um ato de caridade ou um ato de poder. É um ato de solidariedade e empoderamento mútuo, em que as soluções para os problemas são vistas como uma questão de responsabilidade mútua”. Anne Firth-Murray, cofundadora do Global Fund for Women, escreve: “É o “como” que tem o poder de transformar sistemas, estruturas, atitudes e comportamentos das pessoas que doam e seus destinatários, não o "quanto"”. Se enquanto pessoas e organizações doadoras estamos comprometidos com discutir e transformar relações de poder desiguais, e reivindicando a equidade entre todas as pessoas, estamos dialogando com ideais feministas.


2) Doar com interseccionalidade é necessário – e raro

Não importa para qual causa você doa: soluções efetivas sempre vão demandar uma abordagem integrada e interseccional. A interseccionalidade se refere à interação entre marcadores sociais de diferença, como gênero, raça, classe, território, deficiências, orientação sexual, idade, etc. Só que mesmo as doações focadas na promoção de direitos humanos costumam abordar populações e desafios específicos, em vez de ativismos que atravessam várias comunidades ou questões. A Human Rights Funders Network analisou mais de 27 mil doações e descobriu que menos de 5% das delas fazem referência a 3 ou mais identidades – por exemplo, mulheres negras LBTQI. Isso significa que seguimos soltando a mão de muitas pessoas, e que precisamos aplicar uma lente interseccional para quebrar os “silos” nas doações.


3) Precisamos priorizar segurança e proteção holística

Saúde mental, segurança e cuidado coletivo são pautas que geralmente ficam de fora das conversas sobre doações. As pessoas que estão na linha da frente da sociedade civil organizada com frequência estão sobrecarregadas e adoecidas, enfrentando uma série de ameaças e riscos. Como podemos doar para reforçar o bem-estar, a sustentabilidade e a resiliência dos organizadores e de suas comunidades? Como aliar segurança física e digital com o cuidado pessoal e coletivo, de dentro para fora, nas nossas organizações e com nossos parceiros?


4) Compartilhar poder e decisões nos leva mais longe e mais fundo na mudança e nos nossos valores

Alinhadas com muito do que se tem discutido mais recentemente sobre filantropia regenerativa, feministas estão há tempos experimentando formas de compartilhar decisões com as comunidades e movimentos apoiados. No modelo de doação participativa (“participatory grantmaking”) do Fundo Frida, os grupos de jovens que enviam propostas votam nas proponentes de suas regiões que consideram mais indicadas para receber as doações. O Mama Cash, primeiro fundo global de mulheres, anunciou em 2021: “Estamos transferindo a tomada de decisão sobre nossas doações de nossa equipe para as comunidades que pretendemos servir”. A mudança tem a ver com praticar valores. “Tomar decisões sobre como apoiar grupos marginalizados sem sua contribuição também significa que estamos sustentando – em vez de desafiar – as hierarquias de poder que permitem a desigualdade e a opressão.”


5) Independente da sua causa ou área de atuação, mulheres são chave

Mulheres estão à frente de todas as lutas por justiça social, doando seu tempo, suas redes, seus conhecimentos, seu trabalho árduo, seu cuidado. Líderes comunitárias, mães que se articulam em busca de justiça e acolhimento mútuo, agricultoras que regeneram a terra que alimenta a todos nós, e muitas e muitas outras – por todos os lados estão mulheres que doam generosamente. Para conhecer um pequeno e diverso pedaço desse universo, você pode buscar Criola, o GAMI, o Grupo Inclusivass, a ANMIGA, a Anis, o CMTR ou a Amotrans. E mergulhar na extensa rede de parceiras apoiadas pelos fundos de filantropia para justiça social, reunidos na Rede Comuá.

É com elas que melhor podemos aprender sobre – e acreditar – na doação como elemento central para construir o país que queremos.


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Compartilhamos algumas referências sobre o tema abaixo, publicações importantes que sistematizam muitas práticas de organizações de mulheres atuantes tanto no norte quanto no sul global, mas infelizmente todas em inglês. Esse é um desafio do campo da filantropia: democratizar o conhecimento produzido e pautar as discussões a partir das realidades do sul global, em diversas línguas. No Brasil, as organizações dispõem dos recursos necessários para sistematizar seus aprendizados e difundir suas práticas? Como podemos diversificar nossas referências? Como pessoas e profissionais dedicadas a promover a cultura de doação, podemos e devemos buscar referências e inspirações também nas feministas brasileiras.

“Feminist Funding Principles” [Princípios de Financiamento Feminista], do Fundo Astraea: https://astraeafoundation.org/microsites/feminist-funding-principles

Principles for Feminist Funding” [Princípios para Financiamento Feminista], do Equality Fund: https://canadianwomen.org/wp-content/uploads/2020/05/Feminist-Philanthropy.pdf

Sisterhood Feminist Principles of Philanthropy, dos Fundos de Ação Urgente (UAF): https://urgentactionsisterfunds.org/sisterhood-feminist-principles-of-philanthropy/

“Feminist Philanthropy” [Filantropia feminista], dossiê na edição da Alliance Magazine de decembro de 2019: https://www.alliancemagazine.org/magazine/issue/december-2019/

“Funding for Intersectional Organizing: a call to action for Human Rights Philanthropy”: https://www.hrfn.org/wp-content/uploads/2022/07/AHR-Intersectionality-Report-July-2022.pdf

“Step Up, Step Back: Reimagining Non-Competitive Grantmaking in Community”, do Equality Fund: https://equalityfund.ca/grantmaking/step-up-step-back-reimagining-non-competitive-grantmaking-in-community/

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