Conexões que alargam nossa percepção de mundo e do doar


Flores da espécie crocus. Após os invernos rigorosos do Canadá, a crocus é uma das primeiras a sair da terra. (Foto de Joana Mortari)

Por Joana Mortari, diretora da Associação Acorde e integrante do Comitê Coordenador do Movimento por uma Cultura de Doação



Adoro estalos. Sabe do que estou falando? Aquele algo novo que surge em nós quando ouvimos ou lemos alguma coisa que parece se encontrar com o dentro de nós e formar o que não estava lá antes: um pensamento, uma ideia, uma percepção sobre o mundo. Em inglês este lugar é expressado pela palavra in-sight, que significa visão de dentro.


Ontem durante o Programa Despertar do Movimento por uma Cultura de Doação, enquanto eu ouvia atentamente a Graciela Hopstein, coordenadora executiva da Rede de Filantropia de Justiça Social, sobre do surgimento dos fundos independentes (e da rede de fundos) durante o processo de redemocratização do Brasil, me dei conta que muito era novidade para mim. Eu, que tenho como causa o doar e que estudo filantropia há pelo menos 10 anos, me dei conta de que não sabia muito sobre os fundos independentes.


E, mais do que isso, de que muito das práticas filantrópicas do fundos independentes são baseadas nos valores que, para mim, estão no futuro de outras práticas filantrópicas brasileiras e mundiais, no sentido de lugares para os quais outras práticas estão caminhando. Foi como se, ao ouvi-la, eu estivesse olhando pelo buraco da porta do vir a ser filantrópico.

Mas, como pode? Me perguntei. Como pode ser que exista um campo que está praticando um doar com base em confiança, um doar que se organiza a partir de uma relação e que desenvolve os planos de mudança junto com quem recebe recursos, um doar que conscientemente busca horizontalizar relações de poder sem que eu o esteja enxergando?


Foi neste momento que as minhas sobrancelhas apertaram meus olhos, meu corpo se inundou de uma espécie de surpresa seguida por uma intensa curiosidade e interesse que, como um mar que se encolhe diante de nossos olhos antes de formar a onda que explode em nossos pés, a porta para o novo se abriu para mim. Percebi que quando cheguei no setor social e comecei a estudar (se tem uma coisa que advogado aprende, nesta vida, é a estudar), o conhecimento ao qual tive acesso - em pesquisas, artigos, livros - foi formado a partir de um certo olhar, uma certa maneira de compreender o mundo. Me dei conta que também dentro do setor social o conhecimento sendo produzido tem um centro e, consequentemente, uma periferia. E aquele universo todo de prática filantrópica sendo descrito à minha frente, que acontece há anos, estava na periferia do meu saber, do meu acesso ao conhecimento.


E assim, como em um passe de mágica, minha percepção sobre o mundo alargou.

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