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Doar para as potências do território

Por Diane Pereira Sousa, presidenta do Instituto Baixada, professora e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação. 


A palavra doar sempre me causou estranheza. De onde eu vim quando alguém dizia 'doar' ou 'doação' formava-se um sentimento imediato de necessidade profunda. Aceitar a doação não necessariamente significava gostar dela. Porque o ato era produzido na ação da miséria. E nenhum de nós gostava de se sentir miserável. 


Quando Fernando Nogueira, ABCR, escreveu para o "Vozes do MCD" sobre a criação de um Ministério da Doação, passei 3 cafés da manhã pensando nessa escrita do Fernando. E decidi que iria dialogar com essa ideia invocando mais uma vez meus pensamentos chãos


Ultimamente em muitos espaços onde estou, o diálogo sobre doação me chega de forma quase que constante. No caminho da sabedoria, o MCD tem uma jornada de 10 verões, posso dizer que ganhei mais 3 verões. Algumas  coisas me chamam muita atenção, uma delas é que quem está pautando sobre doação dialoga muito sobre impacto no sentido quantitativo. Há uma mobilização intrínseca para a necessidade de 'tirar o outro do buraco'. Mas eu queria trazer aqui um fundamento para o Ministério da Doação, baseado na ação de apoio que ocorreu dentro do MCD no mês de outubro. As pessoas daquele grupo decidiram doar para o Movimento não porque ele precisava 'sair do buraco', mas porque ele é potencialmente importante. Assim como uma criança leitora, assim como uma biblioteca comunitária. 


É preciso que vocês nos vejam como potências, não como corpos subalternos necessitados por natureza. Quando falo isso não estou afastando os dados sobre pobreza e desigualdade no Brasil, e nem descartando as ações emergenciais que precisam ser feitas, porque tem gente que precisa para agora. 


O que quero conversar é sobre a doação que investe no coletivo. Se a gente criasse um Ministério da Doação a palavra carência deveria ser banida de lá. E ela poderia dar espaço para a empatia e o compromisso. 


A comunidade de Olho D'água dos Gomes, na cidade de São Bento - Baixada Maranhense, construiu em parceria com o Instituto Baixada uma ideia de programa chamada Casa de Muriquinho, não havia recurso para tal sonho e então foi-se em busca de torná-lo real. Quando falamos que íamos fazer uma campanha de doação  a mudança de sentimento foi imediata. Quase toda associação de moradores ficou assustada e confusa, partimos para a explicação,  a primeira voz que surgiu foi de Dona Ana: "se a gente der um barracão e vocês os equipamentos ainda iremos precisar de doação?". A Casa de Muriquinho não é uma necessidade profunda motivada pela miséria, ela é o oposto, é uma comunidade que percebeu a importância de transformar sua sabedoria ancestral em tecnologia e decidiu que queria investir na sua potencialidade. 


Foi aí que começamos a construir o entendimento sobre o que é uma doação com eles. Eu não estava naquela conversa, mas ganhei um verão no caminho da sabedoria (aqueles 3 que falei no começo desse texto). Partilhar é algo que se aprende junto com a fala nesse território, o caminho que estamos construindo é para que você não apenas doe, mas também partilhe. 


A Casa de Muriquinho é a primeira construção sem subalternidade da comunidade do Olho D'água dos Gomes, e mesmo que ela não alcance as doações desejadas, já vai ter energizado todo um sistema que a partir daquela conversa não será mais o mesmo. E para mim é também isso que faz um movimento por uma cultura de doação.



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