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Doar sem controlar: porque doações livres e flexíveis funcionam melhor

Por Carol Ferigolli, educadora, psicopedagoga e presidente da Associação Bem Comum; Clesio Sabino, historiador, educador e vice-presidente da Associação Bem Comum; Renata Saavedra, pesquisadora, jornalista e coordenadora programática e de comunicação da Bem-Te-Vi Diversidade; e Vanessa Lucena, relações públicas e coordenadora executiva da Bem-Te-Vi Diversidade, integrantes do Movimento por uma Cultura de Doação.

Foto: Jovens do programa Trilheiros do Saber, da Associação Bem Comum

Em uma conversa recente sobre doações para projetos sociais e para pessoas, uma doadora nos contou a seguinte situação: ela havia doado um instrumento musical para uma estudante que acabou se afastando do curso de música, e não estava mais usando o instrumento. Na opinião da doadora, a estudante deveria devolver o instrumento, já que não estava usando como ela esperava, para que ela pudesse decidir o novo destino do objeto. Quando queremos seguir tomando decisões sobre o que doamos, estamos mesmo “doando”?


Esse exemplo concreto nos ajuda a pensar sobre um tema mais falado do que praticado no ecossistema filantrópico: os apoios livres, flexíveis ou irrestritos para organizações e movimentos sociais, alinhados com a filantropia baseada na confiança. Embora a flexibilidade das doações seja uma tendência crescente, principalmente após a pandemia de covid-19*, as OSCs brasileiras seguem com dificuldade de acessar esse tipo de recurso.


Bastante coisa importante já foi dita sobre o assunto no Movimento por uma Cultura de Doação. Tiana Vilar Lins publicou um artigo recente no Vozes do MCD compilando pesquisas sobre o chamado “ciclo de inanição” (starvation cycle) das OSCs. Ela destacou que “a maioria dos financiadores não cobre de forma adequada custos administrativos, contribuindo para um ciclo de inanição com impactos organizacionais negativos significativos; cobertura de custos inadequada e acesso limitado a recursos flexíveis estão tornando extremamente desafiador que a maioria das OSCs alcance uma saudável estabilidade financeira; e para romper o aprisionamento das OSCs no ciclo de inanição e começar a construir resiliência, os financiadores precisam fornecer: cobertura total de custos; estratégias para que as OSCs consigam ter reservas irrestritas; e apoio para fortalecer as capacidades de sustentabilidade financeira”. Tiana expandiu o debate no texto “Custos indiretos ou investimentos?”.

A pesquisa “Periferias e Filantropia”, lançada pela Iniciativa Pipa, também mostrou que “71,9% das organizações consideram urgente” transformar a “falta de flexibilidade na execução dos recursos no processo de implementação dos projetos”. A pesquisa revela também quem são as organizações e coletivos periféricos** no Brasil: 74% de suas lideranças são negras e 68% são mulheres. Em sua maioria são tocadas por pessoas de 16 a 45 anos. 31% dessas organizações periféricas acessam menos de R$5 mil por ano. Questões de gênero, raça e território estão diretamente ligadas ao acesso a recursos, ainda mais a recursos livres.


O impacto das doações irrestritas nas lideranças das OSCs foi tema de artigo de Phil Buchanan e Ellie Buteau traduzido por Joana Mortari. Sabemos que a falta de recursos irrestritos impede o planejamento, restringe a possibilidade de investir em capacidade organizacional e nas equipes, e pode levar a uma desorganização da missão, já que as organizações passam a se moldar aos objetivos dos financiadores. Só que além de contornar esses problemas, as doações irrestritas são transformadoras para os líderes das organizações apoiadas, “afetando-os pessoal e profissionalmente de maneira a criar o espaço necessário para que sejam mais corajosos ao imaginar e planejar o que é possível para as organizações sociais – e para aqueles a quem elas servem”.


Para contribuir com essa conversa, trazemos alguns depoimentos das lideranças da Associação Bem Comum, organização parceira da Bem-Te-Vi Diversidade, onde atuamos.


A Associação Bem Comum está completando 20 anos em 2023. Nessa trajetória, vocês acessaram recursos livres e voltados para o desenvolvimento institucional da organização. Como isso impactou a Bem Comum e como se deu a construção de relações baseadas na confiança?


A Bem Comum ao longo desses 20 anos se orgulha de ter vivenciado uma trajetória de muita liberdade, confiança e cumplicidade, no que se refere ao acesso a recursos livres. Desde o início, a relação com o mantenedor se configurou como uma relação de confiança, no que dizia respeito ao serviço prestado para a comunidade e às decisões que precisariam ser tomadas para o funcionamento e fortalecimento da organização.


Sempre tivemos o diálogo aberto, o planejamento conjunto pautado pela escuta sincera sem disputa de poder. As relações estabelecidas tiveram o foco no propósito, o que nos permitiu que a Bem Comum pudesse experimentar estratégias diversas no cumprimento da sua missão de promover o desenvolvimento humano, passando por tipos de atendimentos diferentes, que foram consolidando nossa metodologia e os muitos resultados alcançados durante 20 anos. Sempre olhamos para o território e buscamos atender as demandas trazidas pelo público atendido. Público esse que se transformou ao longo do tempo, saindo dos jovens estudantes em situação de vulnerabilidade entre 15 e 21 anos, e chegando até as crianças e adolescentes em situação de acolhimento entre 9 e 18 anos atualmente. Bem como formação e treinamento de professores e educadores sociais como elementos importantes do desenvolvimento humano no território.


O relacionamento aberto e franco com os mantenedores, mediado pelo propósito de desenvolver pessoas e a clareza na prestação de contas, proporcionou tomadas de decisão conjuntas e um espírito colaborativo na gestão do recurso, que não são comuns no campo social. Ao mesmo tempo, possibilitou uma gama de inovações na ação de desenvolvimento humano, e na possibilidade de alianças com outras organizações com o mesmo objetivo. Desde decidir enviar educadores para fóruns e formações externas, assim como enviar adolescentes para encontros e viagens, abrir parte do recurso para a gestão ser feita com os adolescentes e decidir gastos de recursos em plenárias, tendo isto acordado como possibilidade metodológica com o mantenedor, sem que isto gere desconfianças, é uma conquista que não tem preço. Ter a liberdade de planejar e executar uma ação na qual o financeiro está a serviço da transformação social, e não o contrário, pode fazer toda a diferença na ação social e na produção da transformação da sociedade.


A confiança e o vínculo como estratégia para desenvolver o relacionamento entre mantenedor e executor talvez seja o maior tesouro que encontramos ao longo desses 20 anos e que nos possibilitou chegar até aqui, tendo como motor a criatividade e a inovação para enfrentar as mudanças da realidade.


Como vocês têm utilizado os recursos flexíveis atuais, e o que isso tem proporcionado para a Bem Comum?


Os recursos flexíveis atuais têm sido pensados como ferramenta para o fortalecimento da Bem Comum institucionalmente. Uma parte no esforço para comunicar as nossas ações, sistematizar parte do conteúdo acumulado ao longo de anos de experiências na ação social, em forma de algum tipo de publicação, que possa servir como difusor de metodologias, disponíveis em meio digital e físico. Outra parte para permitir uma tranquilidade, em termos de tempo, para a equipe se qualificar em alguns assuntos específicos que dizem respeito à gestão da organização - uma manhã por semana num programa formativo de 8 meses, com o Instituto Amazilia, com o objetivo de fortalecer o entendimento sobre sustentabilidade e governança institucional, além de fomentar novas ações na Bem Comum. Só é possível pensar nesses pontos pela garantia de um recurso que nos permite uma tranquilidade para dispor deste tempo.


Em conversas anteriores, falamos sobre como é difícil sair do "modo de urgência", inclusive para decidir como utilizar recursos flexíveis. Em que medida o apoio livre, com recursos flexíveis e uma relação de mais proximidade e confiança, traz a possibilidade de pausa e reflexão, e o que vocês têm aprendido sobre isso?


Existe uma dinâmica histórica no cenário de atuação das OSCs, que no Brasil muitas vezes são o único apoio às comunidades, pessoas e/ou territórios, que é a dificuldade de se financiarem, em atividades com que muitas vezes nem o poder público tem a devida atenção. Isto cria um efeito que é o tal “modo de urgência”. Aquela correria desenfreada para completar o orçamento e descobrir se estaremos operando no próximo mês, semestre ou ano. Os financiadores que têm a sensibilidade de compreender essa dificuldade do campo, e essa distorção terrível, podem ter uma ação potente de tranquilizar as organizações, trazer reflexões e colocar as expertises no lugar de um saber a ser apreciado, validado e reconhecido.


  1. Confira essa e outras tendências de financiamento no artigo de Liliane Loya, Ellen Sprenger e Lucas Paulson, “Seizing the moment to shake up philanthropy: Five trends that are reorganizing the way funding agencies can work for philanthropic causes” [ Tradução livre: Aproveitando o momento para sacudir a filantropia: cinco tendências que estão reorganizando a forma como as agências de financiamento podem trabalhar para causas filantrópicas].

  2. No contexto deste relatório, entendem-se periferias como as favelas, os sertões, a zona rural e os territórios indígenas, ribeirinhos e quilombolas, ou seja, localidades não apenas afastadas dos grandes centros, geograficamente, mas também em termos de acesso à rede de equipamentos de cultura (museus, cinemas, bibliotecas) disponíveis nos grandes centros. Saiba mais.

 

Referências sobre o assunto trocadas pelos integrantes do Movimento por uma Cultura de Doação:

 

Artigo integrante da 4ª edição "Vozes do MCD"

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