Nós, captadoras de recursos, somos doadoras?



Por Ana Flávia Godoi, fundadora e CEO da Rede Conexão Captadoras, palestrante internacional e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação.


Publicado originalmente no Vozes do MCD*



Vinte e um anos atrás, quando comecei a atuar como captadora de recursos, a única medida do sucesso para mim era o quanto de dinheiro eu conseguia captar. O único e exclusivo objetivo era o depósito em conta ou a assinatura do cheque. No início da minha profissão e muito guiada pelas cobranças por resultado, muitas vezes pouco importava a construção e gestão cuidadosa e responsável do relacionamento com quem confiou na transformação social que seria executada a partir do valor aportado. O que em inglês chamamos de stewardship: prática de, após a conquista da doação, manter viva a chama no coração deste doador, para que ele siga fiel à organização que escolheu destinar seu dinheiro.


Mas à medida que fui ganhando experiência no campo social, conhecendo novas causas e trabalhando com novas oportunidades, fui aprendendo que captação de recursos é sobre realização emocional e pessoal, é sobre construção de um propósito comum sobre dois mundos que ainda não se conhecem, mas estão olhando para a mesma direção e querem a mesma coisa. É sobre ser a ponte entre a transformação social e o desejo de mudar o mundo: sobre ajudar as pessoas a seguirem seus próprios interesses, expressarem seus valores e promoverem suas próprias aspirações.


Assim, captar recursos é sobre demonstrar o quanto a doação é muito mais transformadora para quem doa do que para quem recebe. E assim fui aprendendo que a mais estratégica e inteligente captação de recursos é aquela que constrói relacionamentos de confiança com real significado para o doador: quando ele sente que suas aspirações foram inseridas e acolhidas em um ambiente seguro e de pertencimento.


Mas o importante deste artigo não é falar sobre meus aprendizados como captadora de recursos. Ao longo do tempo em que fui conhecendo as histórias de vida dos doadores e o que os levou a doar, fui entendendo os efeitos da doação na vida de cada um. E percebi que há um profundo efeito cascata através do ato de praticar conscientemente uma filosofia de doação. E de repente me senti querendo fazer parte disso e viver também aquilo. Não só para entender melhor do que eu mesma falava, mas também porque pessoalmente queria também me transformar.


Comecei experimentando doar para os programas de doadores geridos por amigas ou das organizações com as quais trabalhei ou trabalho. E atualmente sou doadora de 25 organizações sociais no Brasil e América Latina, seja através de doação recorrente ou apadrinhamento. Sim, me tornei aquela pessoa que ama os bótons do #diadedoar e já colou os adesivos no computador.


A cada novo programa de doação que conheço, a cada nova organização que me sinto parte, através da doação, a cada material que recebo sobre os avanços e desafios que cada uma vive, mais feliz e completa me sinto.


Aprendi que doar, na verdade, é o maior barato que se pode viver.



Crédito da Imagem: Canva


* O Vozes do MCD é um espaço onde integrantes do Movimento podem compartilhar experiências e reflexões sobre doação. As opiniões expressas nos textos publicados não necessariamente refletem o posicionamento oficial do MCD.

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