Reflexões sobre como uma sociedade expressa a capacidade de cuidar de si mesma


imagem: Shutterstock

Por Cris Ramos, mestranda em Design na Unisinos e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação


Publicado originalmente no Vozes do MCD



Recentemente escrevi um capítulo da minha dissertação que buscava entender como a sociedade expressa a capacidade de cuidar de si mesma diante do fenômeno da desigualdade social. E, fiquei me perguntando porque a cultura de doação já não está enraizada na nossa sociedade visto que o brasileiro, segundo pesquisa do Charities aid Foundation, é solidário, empático, tem disposição em agir, participar e fazer algo pelos seus concidadãos e possui uma vocação latente para a doação. Ao pesquisar sobre o assunto ficou evidente o motivo: viemos de uma cultura assistencialista.


O assistencialismo já era citado na Bíblia e nos relatos dos clássicos gregos e romanos, assim como em diversos fatos históricos como, por exemplo, a abertura do complexo de caridade em Jerusalém - em 1552 pela Roxelana, esposa do sultão do Império Otomano - para viúvas, órfãos e pobres. No Brasil, o assistencialismo teve origem durante a época do Brasil colônia, onde os mais necessitados, tornavam-se vulneráveis e dependentes visto que a terra e o trabalho não eram para compra e venda pois eram alocados de acordo com parentesco ou direitos políticos.


Essa cultura assistencialista, já enraizada em grande parte da população, não tem o devido respeito à singularidade do sujeito e gera uma dependência dos menos favorecidos. A sociedade evoluiu, mas seguiu fortalecendo o assistencialismo, continuou focada na sobrevivência. Durante muito tempo, na sociedade moderna, a economia integrou a noção de subsistência com a de escassez. Felizmente, nos últimos anos tem surgido alguns movimentos com o intuito de substituir essa cultura assistencialista por uma cultura de doação, ou seja, ao invés de assistir, quem sabe trabalhamos na causa raiz e buscamos transformações para extinguir problemas estruturantes da nossa sociedade?


Quando se tem uma cultura de doação enraizada objetiva-se atuar para solucionar o problema que temos hoje, mas também para que ele deixe de existir no futuro. Podemos dizer que a cultura de doação valoriza a cidadania, a reciprocidade e a empatia, além do próprio desenvolvimento pessoal. Nesse sentido, vale ressaltar que de acordo com a pesquisa “Doação Brasil 2020” as pessoas estão tendo uma maior conscientização do seu papel e da urgência de um maior engajamento transferindo o foco de “eu, como indivíduo” para “eu, como cidadão”, o cidadão que tem o poder de transformar a realidade. Ou seja, elas estão tomando consciência de que a sua doação é importante para o desenvolvimento e construção do nosso país, mas para que o Brasil possa evoluir, precisamos fazer com que a percepção de sermos uma sociedade doadora seja vista como positiva. Para tanto, devemos levantar essa bandeira da cultura de doação e falar sobre o assunto.


Como o Movimento pela Cultura da Doação destaca em sua Diretriz 2, “Doar precisa virar assunto do dia a dia, conversa na hora do jantar”: se quem doou comunicar o que fez poderá influenciar positivamente a sociedade disseminando sementes que influenciarão outras pessoas a fazerem o mesmo criando uma prática que beneficia todos. Além disso, o doador pode tornar-se um multiplicador da ação de doar que tem o poder de transformar a realidade. Precisamos criar empatia com causas e fazer com que o doador seja um multiplicador do bem, que a sua ação seja vista como um ato de cidadania e se conecte com a realidade das pessoas. Dessa forma, a ação de doar terá o poder transformar a realidade. Sigamos juntos mobilizando as pessoas na busca pela maturidade e evolução da consciência coletiva!

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