Reflexões sobre pontos delicados da história da filantropia*


Imagem: Plataforma9

*Inspiradas pelo último encontro Despertar, com professor Ruben Oliven


Por Andréa Wolffenbüttel, membro do Comitê Coordenador do Movimento por uma Cultura de Doação



O conhecimento é algo tão poderoso, que quando ele se apresenta em sua forma pura, clara e organizada, ninguém consegue ficar indiferente. Uma prova dessa afirmação aconteceu no último encontro do programa Despertar, promovido pelo Movimento por uma Cultura de Doação, no dia 29 de setembro de 2022.


O cientista social, antropólogo e pesquisador, Ruben Oliven, aceitou o convite para uma breve fala sobre ‘Mitos e Tabus da Doação’. Fez uma exposição de apenas vinte minutos, colocou muitos conceitos em seus devidos lugares sociais e históricos, e manteve a pequena plateia totalmente focada em seu discurso.


Começou por conceituar que a filantropia é consequência da pobreza existente em sociedades capitalistas e democráticas, que acreditam no princípio de que todos são iguais e se sentem desconfortáveis com a desigualdade que existe dentro delas.


Só com essa definição, o professor Oliven já trouxe elementos que me fizeram refletir e chegar a algumas conclusões.


A filantropia pressupõe uma sociedade capitalista. Claro. Para haver doação é preciso que haja excedente. Quem tem apenas o suficiente para sua própria sobrevivência não tem condições de doar. Isso quer dizer que, quando defendemos a cultura de doação, estamos defendendo algo que só existe em sociedades que admitem o acúmulo de riqueza, portanto, desiguais. Algumas muito desiguais e outras menos desiguais, mas sempre desiguais.


A filantropia pressupõe uma sociedade democrática porque sem democracia não existem organizações da sociedade civil que dependam da iniciativa privada para funcionar. Em regimes autoritários o Estado é o grande controlador e provedor das necessidades da população. E essa reflexão nos remete à denominação, até hoje, mais comum para definir organizações da sociedade civil, que é organizações não governamentais


Por fim, a filantropia é fruto de uma sociedade que acredita no princípio de que todos são iguais. Essa é uma ideia que surge com o cristianismo e, portanto, tem profundas raízes na religião. Foi o cristianismo quem trouxe a ideia globalizante de que existe apenas um Deus, pai de toda a humanidade. Logo, somos todos irmãos, ou iguais. Antes o mundo era dividido pela noção básica de ‘nós’ da nossa tribo/religião e ‘eles’ de outras tribos/religiões. ‘Eles’ quase não são humanos e, obviamente, não são iguais. O ideário do cristianismo foi, posteriormente, incorporado pelo Império Romano, transformado, usado e abusado para fins lícitos e ilícitos. Porém, não se pode negar a origem desse princípio nem que ele é uma das bases da cultura ocidental.


Estar ligada à religião, em suas raízes, faz com que filantropia tenha conexões muito próximas com a ideia da redenção. Pois no olhar católico, de um modo geral, a riqueza não é bem-vista e a pobreza pode ser uma forma de purificação dos pecados. Portanto, doar para os pobres surge como um caminho para a redenção. O que nos leva a uma doação interessada na contrapartida divina. Trata-se da velha e boa caridade, que já foi muito mais valorizada, mas que continua presente e, mais do que isso, ainda é necessária para o enfrentamento de problemas urgentes de nossa sociedade.


Avançando um pouco mais na história, relata o professor Oliven, chegamos ao Iluminismo, quando surge a preocupação de atacar os problemas de forma mais racional e menos emocional. A doação deve se ocupar da causa dos problemas e buscar resolvê-los a partir do olhar científico. Essa é uma definição que fortalece a noção de filantropia, em contraposição à caridade.


Porém, o método científico exige rigor e acompanhamento. Exige saber o que vai ser feito com os recursos doados sob risco de não se obter o resultado esperado. Aí está a semente de uma prática presente até hoje em nossa filantropia e que, atualmente, está sob profundo questionamento. O que chamamos de ‘desconfiança’ pode ter surgido muito mais como o ‘temor’ de que a incapacidade de aplicar corretamente os recursos coloque a perder toda a experiência. Experiência essa que era medida apenas pelos resultados alcançados, desconsiderando os aprendizados ao longo do processo e, sobretudo, os conhecimentos e o direito de escolha dos beneficiários da doação.


A apresentação do professor Oliven ainda avançou no tempo e na história, mas eu paro por aqui. Só essas reflexões já me ajudaram a ver de forma mais clara a trajetória da doação ao longo dos séculos e entender um pouco das contradições que carregamos até hoje.

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