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Alocando Capital para a Transformação

  • há 2 dias
  • 4 min de leitura
Crédito da imagem: Unsplash
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Por Heloísa Garcia da Mota, engenheira ambiental, comunicadora, líder de captação de recursos na Climate Ventures e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação


Nos últimos dois anos, grande parte do terceiro setor do Brasil parou, ou melhor dizendo, se movimentou, para falar de clima. Com a expectativa da chegada da COP30 em Belém, a primeira COP em anos num país democrático acontecendo na Amazônia, um dos maiores símbolos da proteção e conservação ambiental do mundo, a pauta climática finalmente encontrou espaço para se conectar com inúmeras outras pautas sociais e econômicas, inspirando ambiciosas agendas de ações (agendas estas que foram um dos maiores legados da presidência brasileira para a Conferência das Partes). Do meu lado, o clima sempre foi uma pauta direcionadora da minha carreira. Em 2007, em meu primeiro emprego, eu aprendi sobre economia e instrumentos financeiros, e também indicadores de sustentabilidade, para trabalhar com um embrionário mercado de carbono que começava a aparecer no Brasil, e daí em diante, a conexão de pautas climáticas com finanças nunca deixou de fazer parte das minhas discussões. E é nessa toada que escrevo este texto para o Movimento por uma Cultura de Doação, para falar de como a evolução da pauta de finanças climáticas e investimento de impacto podem conectar filantropia, mercados e até doações pessoas físicas, e quem sabe, contar novas histórias que possam desconstruir alguns paradigmas sobre doações e filantropia no Brasil, e no mundo. 


Já em alguns artigos que lemos aqui neste canal vemos como eventos climáticos extremos foram impulsionadores de grandes volumes de doações no Brasil, como por exemplo, a tragédia do Rio Grande do Sul. Hoje, inclusive, na discussão sobre adaptação e financiamento climático, vemos vários editais disponibilizando recursos para melhor compreensão de como municípios, estados e organizações podem acessar recursos de diferentes tipos de fundos para não apenas reconstrução pós eventos climáticos, mas também para mitigação e implementação de ações que possam reduzir os prejuízos ou até evitá-los. E sim, existem inúmeros instrumentos para financiamento climático no Brasil e no mundo, desde linhas verdes do BNDES (como o Fundo Clima, mas não apenas) até o Green Climate Fund da UNFCCC. Ainda assim, o ecossistema provoca a busca de instrumentos inovadores para garantirmos impacto e transformações sistêmicas necessárias, e, grande parte das vezes, o termo blended finance vem à tona e a inovação está justamente na combinação de fontes de capital filantrópico atuando como capital catalítico em mecanismos que reduzem os riscos para o mercado tradicional. Mas o que realmente chama atenção para além do conceito de blended finance é, ao ver o que funciona na prática, atentarmos para a possibilidade de conexão de atores, com diferentes papéis e com objetivos assertivos e compartilhados. 


A ideia é inovadora e vem sendo operada e testada há anos por organizações como a Sitawi, que capta dinheiro de diferentes fontes (filantropias e investidores tradicionais) para não apenas modelos de blended finance, mas também empréstimos para negócios de impacto e uma plataforma de investimento coletivo que convida pessoas a investirem em projetos que geram, além de retorno financeiro, impacto socioambiental. Já a Vox Capital, uma venture capital de impacto que capta dinheiro de investidores para negócios e startups de impacto e que, embora não seja o foco, também atuam com capital filantrópico com potencial catalítico para gerar retorno financeiro. Um exemplo mais recente conduzido pela Violet Capital com o Instituto Arapyaú, um mecanismo de blended finance criado para investir em projetos da bioeconomia (começando pela cadeia do cacau), onde o capital filantrópico é central para first loss (ou seja, entra como capital de risco inicial, aceita menor retorno e absorve perdas) atraindo investidores mais “tradicionais” e viabilizando negócios que não seriam possíveis. Na COP30, o Laboratório de Inovação em Justiça Climática, liderado pela Climate Ventures, lançou junto à Sitawi um instrumento financeiro voltado a apoiar projetos que entregam impacto social e para o clima, voltado a apoiar fundos comunitários e que busca capital filantrópico para sua implementação. Se voltarmos ainda mais no tempo, temos o exemplo do fundo “Salvando Vidas” do BNDES, criado para financiamento coletivo onde para cada R$1 doado por um doador, o BNDES adicionava mais R$1 real, mobilizando R$140,00 milhões de reais. Estas são apenas algumas iniciativas que mostram a importância da ampliação do diálogo entre diferentes atores para que a cultura da filantropia e da doação possa ser coordenada para gerar transformação sistêmica. 


Nas últimas semanas, um relatório lançado pela Nature Finance mostrou que para cada US$1 que financia a conservação da natureza, US$30 ainda é alocado para atividades com potencial de destruí-la. No meu primeiro texto para o Vozes, em 2025, eu trouxe o conceito de Filantropia 4.0 de Otto Scharmer e as provocações de Bayo Akomolafe como um dos meus principais desejos para a cultura de doação. Hoje eu convido também a leitura do livro Adventure Finance de Aunnie Patton, que traz também uma reflexão sobre modelos, estrutura e processos que direcionam o investimento em impacto (tentando explorar melhor os investimentos que ficam entre a filantropia - retorno zero - e o investimento tradicional -máximo de retorno possível), deslocando assim audaciosamente e ambiciosamente o olhar do risco para o investidor para o risco de não realizarmos as ações necessárias para a garantia do nosso futuro. Quanto mais sou convidada a desaprender o status quo, mais aprendo que a resposta deve estar mesmo muito próxima do coletivo, da colaboração e no diálogo e na criação coordenada entre todos os atores possíveis envolvidos nos desafios socioambientais e econômicos que enfrentamos; e assim, posso dizer que acredito que a valorização da cultura de doação também deve se aproximar e engajar os ambientes que já foram muitas vezes considerados hostis, como é o caso do mercado financeiro. 


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Produzido pela equipe do Movimento por uma Cultura de Doação 2024

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