Filantropia e ciência: um encontro necessário
- há 11 horas
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Por Andrea Martini Pineda, pesquisadora de pós-doutorado no grupo GEMA Filantropia, vinculado ao Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), editora do Boletim da ISTR para América Latina e Caribe, representante da Alliance Magazine no Brasil e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação

“A filantropia brasileira é autocentrada demais para ser crítica”, me disse uma filantropa durante entrevistas para minha tese de doutorado, poucos anos atrás. Com frequência, volto a essa afirmação ao me perguntar: por que existem tão poucas pesquisas sobre o campo filantrópico no Brasil? Onde estão os centros de pesquisa sobre filantropia? Quais congressos acadêmicos reúnem pesquisadores interessados em debater “Cultura de Doação”? Diferentemente de muitas partes do mundo, o Brasil reflete pouco sobre sua filantropia e não a enxerga como ciência. Por quê? E, devolvendo a pergunta: por que a filantropia não enxerga a ciência?
As respostas poderiam ser muitas: baixo reconhecimento do papel da ciência para a sociedade, manutenção da autonomia científica, desconhecimento por parte dos doadores, falta de uma cultura de doação [para ciência], etc. Provavelmente todos esses fatores têm sua contribuição para o baixo investimento da filantropia em ciências no Brasil: os últimos dados do Censo GIFE (2025) indicam que apenas 16% de seus associados investiram em “ciência e tecnologia” em 2024. Para responder a esta problemática com mais precisão, são necessários estudos e pesquisas sobre o tema … e retornamos ao desafio inicial: como a filantropia olhar para a ciência, e como a ciência olhar para a filantropia?
Pela perspectiva do campo científico, também há muita desconfiança e resistência em buscar/receber apoio financeiro de filantropos. E, em momento algum, minha defesa é minimizar o papel do financiamento público (pelo contrário), mas sim incentivar as muitas possibilidades que o investimento filantrópico poderia trazer à ciência no Brasil: pesquisas mais livres, ousadas, disruptivas e duradouras, a partir de um financiamento mais estável e menos engessado que filantropos(as) são capazes de fazer, e muitas vezes o Estado não.
O doar individual também pode dar sua contribuição neste encontro, por meio dos programas de alumni das universidades e fundos de bolsa, por exemplo.
Os países que são referência em doação, não por acaso também reúnem grandes avanços em pesquisas universitárias. O caso mais emblemático - a universidade de Harvard - mostrou ao mundo que liberdade ideológica se faz também por recursos filantrópicos. É fato que nos Estados Unidos a filantropia em apoio à ciência é tão consolidada que justificou a criação de uma associação entre elas: a Science Philanthropy Alliance. O Brasil, que é referência no mundo em mobilização da sociedade civil, também não poderia ter sua “Aliança brasileira pela filantropia na ciência”?
Fica a provocação, mas também o convite.






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