Crônica de um mundo mais doador
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Crédito imagem: magnific.com
Por Vanessa Prata, cofundadora da ponteAponte e do coletivo Labô e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação
Para balancear minha crônica anterior publicada neste espaço, em que imaginei um dia em que ninguém doasse nada, vamos vislumbrar agora o cenário oposto, um mundo (utópico?) em que todos doam regularmente, sem que nenhuma organização precise ficar captando o tempo todo, sem que ninguém precise ficar pedindo esmolas nas ruas, sem que ninguém tenha que implorar por um prato de comida.
Imagine que desde cedo as crianças sejam estimuladas a doar. Quando chega o aniversário delas ou o Dia das Crianças, elas acordam animadas, como sempre, mas o primeiro pensamento não é “que presente eu vou ganhar?”, e sim “que brinquedo eu vou doar?”. No lugar da festa no buffet caro, elas convidam os amigos da escola para visitarem um abrigo, e os presentes que seriam do aniversariante são doados para as crianças acolhidas. Todos passam uma tarde agradável brincando juntos, e o aniversariante ganha desenhos e bilhetes de agradecimento, além de fotos e muitas recordações.
A ideia de “aniversário solidário” não é nova, existem inclusive diversas plataformas que oferecem a opção de transformar o que seria o presente em doação para alguma instituição. Porém confesso que eu mesma nunca fiz (mas já estou anotando para adotar este ano), nem a maioria dos amigos ou familiares. Então ainda temos uma grande oportunidade aqui de sairmos, ao menos um pouco, da lógica capitalista de comprar presentes (que nem sempre o aniversariante vai gostar) e promover uma “corrente do bem” em nome da pessoa que amamos.
Vamos pegar outra data bem comercial: o Dia dos Namorados. Nesse mundo doador, os casais têm uma tradição: sempre passam a data fazendo algum trabalho voluntário juntos e arrecadando doações para uma organização. Um casal apaixonado por cães decide passar o Dia dos Namorados numa ONG que abriga animais de rua. Recebem de volta o amor incondicional dos bichinhos, com muitas lambidas de agradecimento. Outro casal, mais conectado com a natureza, mobiliza os amigos para um mutirão de limpeza na praia, além de uma doação para a ONG que dá aulas de surf para as crianças da comunidade. A tradição começa a crescer tanto que passa a ser “obrigatória” nos aniversários de namoro e de casamento.
E no tradicional amigo-secreto de fim de ano então? Em vez de darmos aquela roupa que será trocada na primeira semana de janeiro porque ficou grande ou pequena demais ou é de uma cor que você não gosta, os presentes seriam “vales-doação”, em que cada pessoa escolhe a organização que receberá a doação. O sorteio pode até ser com o nome da ONG, e só na hora descobrimos quem foi o amigo-secreto que escolheu (pensei nisso agora, mas pode ser legal, não? Vou propor para minha família).
Nesse mundo mais doador, nenhuma comida em boas condições é desperdiçada; todo o excedente de bares, cafés, restaurantes, mercados e outros estabelecimentos é doado (antes de perder a validade e sem ter ido à mesa, claro), com incentivos fiscais, e não com o medo de ser multado caso alguém passe mal.
Nesse mundo mais doador, nenhum órgão humano em condições de salvar uma vida é desperdiçado ou negado. Todos são doadores em potencial, sem a paranoia de que “o hospital vai me matar antes do tempo para roubar meus órgãos”.
Nesse mundo mais doador, todas as empresas destinam parte do lucro para doação, e não somente deduções do imposto de renda.
Nesse mundo mais doador, as pessoas conversam regularmente sobre doação, como uma parte natural da vida. “E aí, como foi a semana? Como estão as crianças? Muita correria no trabalho? Fez alguma doação?”. E isso não é uma cobrança, mas um hábito.
Nesse mundo mais doador, a mídia teria uma editoria fixa sobre cultura de doação, e a seção de economia publicaria indicadores de doação ao lado da cotação do dólar e da Selic. “A taxa de doação caiu hoje, vamos mobilizar mais gente para doar!”.
Nesse mundo mais doador, o sonho do Movimento por uma Cultura de Doação (Sonhamos com uma sociedade onde as pessoas doam generosamente) não seria somente um sonho, mas uma realidade.






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