Crônica de uma doação perdida
- há 15 horas
- 2 min de leitura
Por Vanessa Prata, cofundadora da ponteAponte e do coletivo Labô. É membro do MCD – Movimento por uma Cultura de Doação.

Presente*
Não chorou quando perdeu o trabalho.
Não chorou quando perdeu a casa.
Não chorou quando passou fome.
Mas chorou quando ganhou um ursinho
de uma criança que passou na frente de seu barraco.
Naquele dia ninguém doou nada. Nem uma moeda, nem uma cesta básica, nem um prato de comida, nem uma peça de roupa. Ninguém doou sangue ou órgãos também. Nem mesmo tempo foi doado. Nenhuma pessoa doou em nenhum lugar do mundo.
Algumas pessoas até pensaram em doar, é verdade, mas deixaram para o dia seguinte, para a semana seguinte, para o mês seguinte ou para quando desse. Outros também cogitaram doar mas acharam que sua doação não faria diferença, afinal, “já tem tanta gente doando, e eu posso doar tão pouco...” Já outros não doaram porque achavam que não era obrigação deles mesmo, e sim do governo, da igreja, das ONGs, dos milionários... Houve ainda quem não doasse por princípio, para não “acostumar mal” as pessoas que estavam pedindo dinheiro para comida, mas que, no fundo, “iam gastar com bebida ou cigarro”.
Algumas pessoas ainda deixaram de doar, disseram elas, por falta de tempo, por falta de dinheiro, por falta de confiança, porque estavam cansadas de receber pedidos de doação ou, ao contrário, simplesmente porque ninguém pediu uma doação naquele dia.
Naquele dia sem nenhuma doação, milhões de pessoas – crianças, jovens, adultos, idosos – morreram de fome, de sede, de frio, de hemorragia ou de desgosto. Outros milhões perderam a chance de voltar a enxergar, de voltar a andar, de viver sem depender de uma máquina ou de se curar de uma doença grave.
Naquele dia em que ninguém doou nada, o mundo ficou mais cinza, as pessoas ficaram mais tristes, as relações mais estremecidas. Um mundo sem doação é um mundo frio, opaco, egoísta.
Felizmente esse dia não aconteceu porque você que está lendo já fez sua doação hoje, certo?
*A foto e o microconto fazem parte do meu livro Flashes de Percepção, disponível gratuitamente em: https://heyzine.com/flip-book/6bb5d04d37.html, minha doação a todos os leitores deste texto.






Comentários