top of page

Quando a solidariedade vira espetáculo?

  • há 11 minutos
  • 3 min de leitura
Agência Brasil - Fotográfo Rafa Neddermeyer
Agência Brasil - Fotográfo Rafa Neddermeyer

Por Caroline Farias, mestre em Comunicação digital e cultura de dados, e integrante do MCD - Movimento por uma Cultura de Doação





Em maio de 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul produziram uma das maiores mobilizações solidárias recentes no Brasil. As imagens da tragédia circularam rapidamente pelas redes sociais, pedidos de ajuda se multiplicaram e doações chegaram de diferentes partes do país.


Foi esse movimento que me levou a investigar, no mestrado, uma pergunta que continua me acompanhando: o que acontece com a solidariedade quando a emergência deixa de ocupar o centro da atenção?


Analisei 2.561 publicações no X relacionadas às enchentes, entre abril e julho de 2024. O resultado mostra uma concentração muito forte da atenção: 2.539 publicações ocorreram em maio. Em junho, foram apenas 21. Em julho, uma. 


Também chamou minha atenção o conteúdo dessas publicações. Mais de mil incentivavam a divulgação e o engajamento, enquanto 411 faziam pedidos diretos de doação. Apenas 10 publicações mencionavam reconstrução ou ações de longo prazo.


Para encontrar essas publicações, utilizei uma sequência de palavras-chave que envolviam menções à “doação”, “reconstrução”, “continue doando”, “reconstrução”, entre muitas outras.

Não acho que isso signifique que as redes sociais sejam um problema para a cultura de doação. Pelo contrário. Elas foram fundamentais para tornar a emergência visível e conectar pessoas a formas concretas de ajudar. A questão é o que a lógica dessas plataformas faz com aquilo que conseguimos enxergar.


Guy Debord escreveu, ainda nos anos 1960, sobre uma sociedade na qual as relações passam a ser mediadas por imagens. Hoje, essa discussão encontra as plataformas digitais, que organizam a visibilidade a partir de mecanismos de engajamento e atenção.

Uma imagem de uma pessoa resgatada, um pedido urgente ou a história de uma família atingida pode mobilizar milhares de pessoas. Já a discussão sobre reconstrução, prevenção de novos desastres ou sustentabilidade das organizações que atuam nesses territórios dificilmente produz o mesmo nível de circulação.


Uma das intenções da minha pesquisa foi encontrar organizações de base que tenham recebido doações para entender se estes que apoiaram no período mais intenso da crise se mantiveram doando para a reconstrução dos danos causados pelas enchentes. 


As entrevistas que realizei foram com a CUFA Esteio e a Parceiros Voluntários, e mostraram outra dimensão desse problema. As duas organizações mobilizaram milhões de reais, cada uma, durante a emergência. Mas a maior parte dos recursos veio de empresas, grandes doadores e redes de influência. As doações de pessoas físicas foram mais fragmentadas e, em alguns casos, difíceis de transformar em relacionamento posterior.


Há uma razão prática para isso. Durante uma emergência, as organizações precisam responder à urgência. Equipes são deslocadas, estruturas são reorganizadas e recursos precisam chegar rapidamente a quem precisa. Pensar em fidelização, relacionamento e doação recorrente acaba ficando em segundo plano. Não há sistema ou estrutura para garantir que os doadores serão informados do destino da doação ou que haverá a construção de uma relação mútua de confiança.


É aqui que vejo uma questão importante para a cultura de doação. E que se conecta com uma divisão que temos visto também sobre “cultura de captação”.


A emergência consegue aproximar pessoas de uma causa. Mas essa aproximação não garante, sozinha, uma relação permanente. A Pesquisa Doação Brasil 2024 mostra que 74% das pessoas apontaram situações emergenciais como motivação para doar, enquanto apenas 49% disseram doar para as mesmas organizações ano após ano.


Talvez o desafio não seja escolher entre emoção e informação, ou entre mobilização e continuidade. Precisamos pensar em como uma coisa pode levar à outra. A imagem que provoca comoção pode ser o primeiro contato. A confiança, a transparência e o conhecimento sobre a causa podem sustentar os próximos.


Se queremos uma cultura de doação baseada em uma prática habitual e voluntária de compartilhamento de recursos para uma sociedade mais justa, equitativa e sustentável, precisamos também discutir o que acontece depois que a tragédia deixa de ser notícia.

Num cenário em que mudanças climáticas não saem e não sairão da pauta, precisamos pensar em como nos prevenir para as próximas calamidades. A solidariedade não termina quando as águas baixam. E talvez nossa comunicação com doadores também não devesse começar ali. No próximo artigo, trarei as soluções que desenvolvi a partir deste estudo.



Declaração sobre uso de IA: usei uma ferramenta de inteligência artificial para apoiar a organização e a redação inicial deste texto. A pesquisa, os dados, as ideias e a argumentação são de minha responsabilidade.



Comentários


horizontal-shot-of-pretty-woman-with-pleasant-smile-on-face-enjoys-online-communication-on
horizontal-shot-of-pretty-woman-with-pleasant-smile-on-face-enjoys-online-communication-on

Cadastre seu e-mail

E acompanhe as novidades sobre cultura de doação.

Produzido pela equipe do Movimento por uma Cultura de Doação 2024

bottom of page