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CULTURA DE DOAÇÃO PARA QUEM? Quem pode convencer quem doa

há 18 minutos
5 min de leitura
Imagem gerada por Inteligência Artificial
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Por GUÏBSON TÔRRES, pesquisador das relações étnico-raciais e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação




Há uma pergunta que volta e meia me acompanha nas conversas sobre filantropia: é possível falar seriamente em cultura de doação e redução das desigualdades no Brasil sem colocar a questão racial nessa conversa?


Não estou defendendo que toda doação precise ser destinada exclusivamente à pauta racial. A questão é outra, e talvez até mais simples: quando decidimos enfrentar as grandes desigualdades brasileiras, quem encontramos do outro lado?


Quando falamos de educação pública, quem está majoritariamente nas escolas mais vulneráveis? Quando o assunto é pobreza e geração de renda, quem recebe os menores salários? Quando direcionamos recursos para periferias, segurança alimentar, cultura ou empregabilidade, quem compõe boa parte da população que enfrenta as maiores barreiras?


Sempre, a população negra está lá.


Por isso, tenho dificuldade de enxergar a equidade racial como mais uma causa disputando espaço com educação, renda, cultura, saúde ou desenvolvimento. A questão racial atravessa todas essas agendas.


Os números tornam isso ainda mais evidente. Pretos e pardos representam 55,5% da população brasileira. Em 2024, pessoas brancas recebiam, em média, 65,9% mais pelo trabalho do que pessoas pretas ou pardas. Não estamos falando de uma desigualdade abstrata. Ela tem território, gênero, classe e, evidentemente, raça.


Mas há algo que muda quando saímos do campo das pessoas impactadas e entramos nas salas onde se decide para onde o dinheiro vai.


O Censo GIFE 2024-2025 registrou R$ 5,8 bilhões em investimento social privado. Desse universo, R$ 116 milhões foram destinados à equidade racial, algo em torno de 2%. O mesmo levantamento traz um dado que, para mim, diz muito: 89% das pessoas que ocupavam os conselhos deliberativos das organizações respondentes eram brancas.

Não consigo olhar para esses dois números separadamente.


Porque cultura de doação não é apenas uma discussão sobre quanto uma sociedade doa. É também uma conversa sobre quem possui os recursos, quem decide sobre eles, quais causas são consideradas prioritárias e, principalmente, quem consegue chegar perto de quem decide.


E aqui mora um incômodo que venho acumulando há algum tempo.


Em diferentes espaços da filantropia, já ouvi lideranças dizerem que é difícil conversar com grandes doadores sobre desigualdade racial. Algumas reconhecem resistência. Outras dizem não saber como abordar o assunto. E, em algumas conversas, ainda percebo a presença, mesmo que não seja dita dessa maneira, de uma crença na meritocracia que insiste em tratar desigualdades históricas como se fossem apenas diferenças individuais de esforço, formação ou oportunidade.


Toda vez que escuto isso, penso: se vocês não conseguem conversar com seus pares, quem vai conseguir? Nós?


Quantas lideranças negras chegam aos espaços privados onde grandes decisões filantrópicas começam a ser construídas? Quantas estão nos conselhos? Quantas frequentam os mesmos ambientes sociais das famílias detentoras de grandes patrimônios? Quantas podem pegar o telefone, ligar para um grande doador e dizer: “preciso de uma hora da sua atenção para conversar sobre isso”?


É claro que algumas conseguem. Mas sabemos que essa ainda está longe de ser a regra.

E isso não diz respeito à capacidade das lideranças negras. Diz respeito a acesso.


Acesso também é um recurso!


Uma relação é um recurso. Confiança é um recurso. Poder circular em determinados ambientes é um recurso. Ter o telefone de alguém é um recurso. Ser ouvido sem precisar explicar, antes de qualquer coisa, por que você deveria estar naquela sala também é um recurso.


E esses recursos não foram distribuídos igualmente na sociedade brasileira.

Talvez por isso essa discussão também ofereça uma resposta a uma pergunta que nós, pessoas negras, ouvimos há anos: “Mas como uma pessoa branca pode ajudar no combate ao racismo?”


Pois bem. Aqui está uma possibilidade bastante concreta.

Use o seu acesso.


Se você participa de um conselho, coloque a desigualdade racial na pauta. Se conversa com filantropos, fale sobre raça. Se participa da decisão sobre investimentos, pergunte quanto desse dinheiro chega às organizações lideradas por pessoas negras. Se você frequenta espaços aos quais essas lideranças ainda não chegam, ajude a abrir a porta.

Não é preciso falar por nós. Nós sabemos falar.


Talvez seja mais importante falar quando nós não estamos lá.


Porque ser aliado não pode significar apenas concordar conosco quando estamos presentes. Há um tipo de aliança muito mais difícil, e provavelmente mais transformadora, que acontece quando uma pessoa branca está entre seus pares e decide colocar na mesa uma questão racial que ninguém havia colocado.


Há dinheiro circulando no Brasil. A Pesquisa Doação Brasil 2024 estimou em R$ 24,3 bilhões o volume de doações individuais naquele ano. Entre os brasileiros adultos com renda familiar superior a um salário mínimo, 78% fizeram algum tipo de doação, considerando dinheiro, bens ou voluntariado.


Portanto, talvez nosso problema não seja simplesmente falta de solidariedade.

A pergunta que me interessa é outra: para onde essa solidariedade olha?


Quem ajuda os doadores a compreender as desigualdades brasileiras? Quais problemas aprendemos a reconhecer como urgentes? Quais permanecem confortavelmente invisíveis?


E quem participa da formação das convicções de quem tem dinheiro e poder para decidir?

Ao longo da minha trajetória no terceiro setor, fui aprendendo uma distinção que hoje considero fundamental: atender pessoas negras não significa, necessariamente, enfrentar a desigualdade racial.


Podemos financiar a educação de milhares de estudantes negros sem perguntar por que suas trajetórias educacionais são diferentes das de estudantes brancos. Podemos apoiar empreendedores negros sem enfrentar as barreiras que dificultam seu acesso ao crédito. Podemos investir milhões nas periferias sem pronunciar a palavra racismo. Podemos financiar organizações que atendem majoritariamente pessoas negras e nunca financiar organizações lideradas por pessoas negras.


A população negra estará presente. Mas apenas como destinatária da política, do projeto, da ação ou da caridade.

E há uma enorme diferença entre estar presente como beneficiário e estar presente como sujeito capaz de definir prioridades, formular soluções e administrar recursos.

É por isso que acredito que precisamos acrescentar outras perguntas à conversa sobre cultura de doação.


Além de perguntar quanto doamos, precisamos perguntar quem decide para onde o dinheiro vai. Quem recebe. Quem consegue chegar até nós. Quem não consegue. Quem participa das nossas redes de confiança. E quais conversas evitamos ter com aqueles que possuem poder para movimentar recursos.


O Movimento por uma Cultura de Doação define cultura de doação como um conjunto de comportamentos, símbolos e valores que se expressam no compartilhamento voluntário de recursos privados em busca de uma sociedade justa, equitativa e sustentável. 

Gosto particularmente da palavra equitativa.


Porque, se ela estiver mesmo no horizonte, não há como tratar raça como um assunto lateral.

Talvez esteja aí uma contribuição importante dos aliados brancos para o enfrentamento ao racismo: não ocupar a nossa voz, mas usar o próprio acesso. Levar essa conversa para espaços aos quais ainda não chegamos. Colocar a questão racial diante de quem talvez nunca tenha sido provocado a enxergá-la. Compartilhar relações, influência e poder.

Não precisamos que falem por nós.


Precisamos que conversem com quem ainda não nos escuta.

Porque uma filantropia que não enxerga raça pode financiar educação, combater a pobreza, investir nas periferias e alcançar milhões de pessoas negras.

Pode fazer tudo isso.


O que ela dificilmente conseguirá é transformar por inteiro a desigualdade que fez com que essas pessoas precisassem estar ali.


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Produzido pela equipe do Movimento por uma Cultura de Doação 2024

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