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Quem deu esse nó não soube dar

há 4 dias
4 min de leitura
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Por Matheus Viana, Coordenador de Programas da Pacová, e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação




A ideia inicial desse texto surgiu em uma atividade que participei. Uma parceira, ao se referir às contradições do ecossistema filantrópico, trouxe um canto indigena: “Quem deu esse nó não soube dar: esse nó tá dado, eu desato já". A imagem do nó, com sua força de provocação, nos convida a olhar para as relações que organizam o financiamento das lutas populares e a reconhecer que aquilo que parece dado pode ser desfeito e reconstruído.


Quando olhamos para a forma como os recursos chegam aos movimentos sociais e organizações de base (o que aqui vou chamar de organizações populares), encontramos um nó que se manifesta na distância entre o que essas organizações precisam para sustentar suas lutas e aquilo que o financiamento está disposto a apoiar.


Sustentar a democracia e a luta por direitos exige olhar sensível para as condições em que os recursos chegam às organizações populares. Mais do que financiar atividades, fazer isso exige olhar para as condições concretas que tornam a atuação das organizações populares possível. Na escuta dessas organizações, uma questão se repete: há custos necessários para fortalecer suas lutas que não encontram lugar nas rubricas dos projetos. Manter um espaço aberto, remunerar quem trabalha e garantir deslocamentos são condições básicas de atuação. Ainda assim, precisam justificar continuamente para que sejam reconhecidas como legítimas.


Essa distância revela um problema na própria lógica de projetos. O financiamento se organiza em torno de atividades, tabelas, prazos, metas e entregas. Para acessar recursos, as organizações precisam repartir ou adequar sua atuação em propostas que caibam nas prioridades de quem financia, deixando de fora parte do trabalho que sustenta sua existência.


As organizações populares existem para lutar por direitos e transformar a realidade, não para prestar serviços a financiadores. Sua atuação envolve formar quadros, articular comunidades, enfrentar conflitos e construir respostas coletivas. Elas têm trajetórias e projetos políticos que antecedem qualquer edital. Quando o apoio fica condicionado à execução de atividades determinadas, essa dimensão política perde espaço e as organizações são pressionadas a funcionar como prestadoras de serviços.


É aí que o nó se aperta. Pode haver recurso para realizar um encontro, mas faltar dinheiro para resolver um conflito na comunidade ou uma pauta politicamente sensível. Uma necessidade urgente pode surgir enquanto o saldo disponível permanece preso a outra rubrica. A organização conhece a demanda e sabe como responder, mas precisa pedir autorização para agir? Enquanto isso, as entregas continuam sendo cobradas. O que o orçamento não cobre acaba sustentado por sobrecarga, trabalho não remunerado e busca constante por novos projetos.


Rubricas rígidas e métodos de prestação de contas reforçam um ecossistema de controle, paternalismo e desconfiança. Quem financia define quais necessidades são legítimas e submete as escolhas das organizações à sua autorização. À organização cabe executar, comprovar e justificar. Seu conhecimento sobre o território é valorizado na apresentação da proposta, mas perde autoridade quando precisa orientar uma decisão sobre o dinheiro.


Desatar esse nó exige mais do que flexibilizar rubricas ou melhorar os instrumentos de financiamento. Exige transformar as relações que sustentam a doação no país e construir uma cultura de doação que reconheça as organizações populares como sujeitos políticos, guardiões de saberes, trajetórias e capacidade de decisão. Uma cultura de doação fortalecida não se constrói apenas ampliando o número de pessoas que doam, apesar de ser super importante. Ela exige construir, lado a lado com as organizações populares, narrativas públicas de confiança que reconheçam a importância de suas lutas e questionem a ideia de que os recursos só podem ser entregues quando submetidos a controles que restringem sua autonomia.


Por isso, precisamos de uma cultura de doação baseada na confiança em quem já faz muito com muito pouco ou quase nada. Isso significa ampliar o compromisso de pessoas e instituições com a sustentação das organizações populares, fazendo da doação uma prática contínua, vinculada às lutas e às trajetórias dessas organizações. Uma cultura que estimule contribuições regulares e recursos livres e flexíveis, capazes de chegar às organizações sem que cada necessidade precise ser convertida em um projeto, uma meta ou uma rubrica previamente autorizada.


Quando pessoas e instituições assumem um compromisso contínuo com as organizações populares, os recursos podem deixar de estar vinculados exclusivamente à realização de atividades específicas e passar a apoiar a continuidade de suas trajetórias e projetos políticos.


Fortalecer a cultura de doação é construir essa sustentação coletiva, para que as organizações tenham autonomia para conduzir suas lutas. Desatar o nó da dependência de projetos não é substituir uma fonte de financiamento por outra. É construir condições para que as organizações tenham mais de uma possibilidade de sustentação e possam decidir sobre os recursos a partir de suas necessidades, prioridades e compromissos com os territórios. É fazer com que o financiamento acompanhe as lutas, e não que as lutas precisem se adaptar permanentemente ao financiamento.


Doar é uma escolha política. Fortalecer a cultura de doação é também fazer uma escolha sobre a sociedade que queremos construir e sobre quais sujeitos devem ter condições de participar da transformação dessa sociedade. Se queremos uma democracia e instituições fortes, precisamos sustentar uma sociedade civil articulada, que polarize contra os retrocessos, enfrente injustiças e lute por direitos.


O fortalecimento dessa cultura de doação exige que pessoas, instituições e organizações populares construam juntas novas formas de relação. Exige deslocar narrativas de desconfiança e controle e reconhecer que confiar não significa abrir mão do compromisso, mas compartilhar a responsabilidade de sustentar as lutas sem retirar das organizações o poder de decidir sobre seus caminhos.


Quem deu esse nó não soube dar. Desatá-lo exige a determinação de colocar os recursos a serviço das lutas e reconhecer o poder de decisão de quem as constrói.


O nó está dado. Desatá-lo é uma tarefa coletiva.


 
 
 

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Produzido pela equipe do Movimento por uma Cultura de Doação 2024

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