A Filantropia Estratégica no Divã, Sessão 3

Por Joana Ribeiro Mortari, ativista pela cultura de doação e cofundadora do Movimento por uma Cultura de Doação, e Michelle Prazeres, jornalista, professora, pesquisadora, fundadora do Instituto Desacelera e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação.
A Filantropia Estratégica chega sete minutos atrasada, o que nunca aconteceu, e senta-se pesadamente, sem esperar por um convite. “Estive pensando”, diz ela. “Preciso perguntar uma coisa e preciso de uma resposta direta, nada dessa coisa de beber kombucha e ficar fazendo pausinhas. Tudo bem?”. Sem esperar por uma resposta ou ao menos um aceno de cabeça, continua: “O que está acontecendo? Por que tantas críticas à eficiência? O que essas pessoas querem, voltar à idade da pedra da filantropia, quando doar se limitava a ajudar?”.....“Nobre”, diz ele com desdém, “mas não provoca uma mudança na situação, não vai na raiz do problema”. O desabafo continua. “Estou tão irritado com toda essa resistência a todas as coisas grandiosas que construí nas últimas décadas.”
A raiva é sempre um bom começo, reflete a terapeuta sentada em seu canto, esperando que a energia se dissipe. “Por que você acha que o problema das pessoas é contra a ideia de eficiência?”, pergunta a terapeuta.
“Lá vamos nós...”, ele murmura irritado. “Porque estou sendo criticado por ser autoritário, por usar o poder para moldar resultados e por não ouvir as pessoas nas comunidades onde o problema está. É injusto! Você sabe quanto tempo leva um processo colaborativo? Eu nunca conseguiria cumprir com eficiência o cronograma que estabeleci para mim mesmo se tivesse que me reunir com grupos e ter conversas intermináveis; às vezes eles até fazem... encontros residenciais de três dias! O mundo está em frangalhos, o clima está mudando rapidamente nossas vidas, há doenças se espalhando, pobreza extrema e direitos sendo violados em todos os lugares. Não há tempo para sentar e passar um dia inteiro com bobagens do tipo ‘como você está, o que te traz aqui’”, diz ele, inclinando a cabeça para o lado em tom de zombaria.
“Eu entendo.” Diz a terapeuta: “É um grande paradoxo. Isso nos coloca na posição de acreditar que realmente precisamos nos apressar, que a urgência da transformação, por si só, justifica o custo da pressa. Isso torna a pressa necessária, até mesmo imperativa.” Ela sustenta enquanto ele se acomoda na cadeira, sentindo-se compreendido. “Por outro lado, se nos apressarmos na transformação que almejamos alcançar, não estaremos reproduzindo as dinâmicas sensíveis e sutis de poder e violência que, de muitas maneiras, ajudam a manter o mundo que queremos transformar? O tempo que realmente leva para que uma mudança verdadeira aconteça não tem algo a nos ensinar sobre o ritmo dos processos e da vida de antes de nos tornarmos viciados na ideia de eficiência e produtividade?”.
Seu rosto assume uma expressão de raiva e perplexidade. “O quê? Não estou entendendo. Que dinâmicas sutis e delicadas? Do que você está falando?”
A terapeuta faz uma pausa, deixando intencionalmente que o tempo participe da sessão. Retoma em um ritmo de fala muito mais lento do que o que estava ouvindo. “Estou falando do que às vezes é chamado de ‘sociedade do esgotamento’.” Ela olha para ele e consegue perceber os pequenos sinais de mudança, como aquelas primeiras folhas amarelo-brilhante que ela tinha visto no norte no final do verão.
“Às vezes ficamos tão presos na dinâmica da pressa, da velocidade e da correria diária que achamos que só nós estamos exaustos, correndo e com pressa. Mas a ideia de uma sociedade de pessoas em esgotamento pode nos ajudar a entender que a velocidade se tornou uma espécie de ‘agenda invisível’ do mundo. Estamos todos correndo. Portanto, não se trata de uma organização ou de outra, de uma pessoa ou de outra. É uma questão sistêmica e coletiva tão arraigada como norma que deixamos de percebê-la em nosso dia a dia.”
Ela faz uma pausa, ele está ouvindo…
“Isso acaba nos governando, ditando ritmos de trabalho, rotinas para gerar resultados e lógicas de gestão. Tudo está voltado para uma cultura de produtividade que, por sua vez, está relacionada a uma ideia de crescimento, desenvolvimento e avanço que nos trouxe até aqui e que — apesar de querermos transformá-la — acabamos reproduzindo quando não observamos e transformamos nossas práticas cotidianas, desde as minúcias de nossos relacionamentos até o panorama geral das políticas públicas.”
Um silêncio — será que foi longo? —. A Filantropia Estratégica parece ter sido arrancada de si mesma, de sua própria pressa, e levada a um momento de reflexão profunda, talvez dolorosa. “Eu também estou cansado”, diz, respirando fundo, com o olhar perdido no vazio. Continua, com a voz bem mais baixa e a fala entrecortada… “Ao trabalhar por um mundo melhor podemos ver como os tempos são desafiadores em todos os lugares. Essa dor, creio eu, é o que usamos para justificar nossa pressa. Não tenho mais certeza…”.
“É um bom lugar para se estar, um lugar necessário para se estar”, diz a terapeuta. Será que posso dar um passo à frente?, pondera consigo mesma. Decide arriscar, o tempo da sessão está se esgotando... “Talvez seja importante aprofundar um pouco mais essa questão. A pressa se resume apenas ao sentimento legítimo e permanente de urgência? Ou ela também pode residir na forma como percebemos o tempo, como o tratamos como um recurso, uma coisa.”.
“Não tenho certeza se entendi”, murmura a Filantropia Estratégica, sentindo-se perdida novamente.
A terapeuta percebe imediatamente que perdeu o momento certo e se vê na mesma dinâmica de pressa. “Droga”, ela pensa. Mas é tarde demais, ela precisa fechar o assunto, a sessão, e continua: “quando você pensa em um projeto, você o avalia considerando os resultados ao longo do tempo. Eficiência significa mais resultados em menos tempo, como em uma linha de produção industrial. A questão é: em situações não lineares, complexas e simultâneas, como a maioria dos desafios ecológicos e sociais que enfrentamos atualmente, é isso que significa ser eficiente? Será que é focar nos resultados ao longo do tempo ou na inteireza da mudança em si, integrando-se a ela ao descobrir onde e quando seu conhecimento e seus recursos financeiros são necessários? A filantropia diz respeito à sua eficiência ou à eficiência da mudança como um todo? … Talvez abrir a possibilidade para outras formas de vivenciar o tempo em meio à urgência seja, por si só, uma transformação corajosa.”
Ela chegou no pensamento que queria, mas perdeu a Filantropia Estratégica no caminho. Ao invés de esperar o seu tempo de mudança, forçou… e chegou a lugar nenhum.






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