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A crise da confiança e o futuro da cultura de doação

  • há 1 dia
  • 4 min de leitura
Crédito: foto de Helena Lopes na Unsplash
Crédito: foto de Helena Lopes na Unsplash

Por Julia Caldas de Almeida, Relações Públicas, estrategista e articuladora intersetorial para impacto socioambiental, fundadora e CEO da Ubuntu Impacto Social, cofundadora do Grupo Egrégora – Inteligência Coletiva para o Desenvolvimento Territorial, líder do Dia de Doar em Minas Gerais (#DoaMG) e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação


Vivemos a era da hiperconexão.

Nunca estivemos tão acessíveis, expostos e informados. Paradoxalmente, vivemos um tempo marcado pelo enfraquecimento dos vínculos, pela polarização e por uma crescente desconfiança em relação às instituições e às próprias relações humanas.

O maior desafio da cultura de doação hoje não é financeiro. É humano e relacional. Porque doar exige confiança. E confiança não nasce espontaneamente. Ela é construída — e constantemente mantida — por meio da transparência, da coerência, da ética, da comunicação, da escuta, da empatia, da participação e da experiência coletiva.

Não existe cultura de doação sem cultura de confiança.

Nos últimos anos, acompanhamos o crescimento de debates importantes sobre filantropia, investimento social privado e fortalecimento da sociedade civil. Ao mesmo tempo, vemos aumentar a sensação de isolamento, a dificuldade de construir consensos e a tendência de enxergar o mundo a partir de perspectivas cada vez mais individualizadas.

Isso impacta diretamente a forma como nos relacionamos com as causas sociais.

Ninguém cuida do que não conhece. Ninguém se compromete profundamente com aquilo que não compreende. E dificilmente alguém apoia aquilo em que não confia.

Talvez por isso a comunicação de causas seja muito mais do que divulgação institucional. Comunicar, no Terceiro Setor, é construir vínculo, legitimidade e pertencimento. É criar pontes entre pessoas, organizações e territórios. É transformar organizações sociais em espaços de relação humana — e não apenas em executoras de projetos.

Mas existe uma contradição importante nesse cenário. Ao mesmo tempo em que exigimos profissionalização, transparência, indicadores, governança e resultados das organizações da sociedade civil, ainda operamos sob uma lógica marcada pelo excesso de controle e pelo subfinanciamento estrutural.

Muitas OSCs passam boa parte do seu tempo tentando se encaixar em editais extremamente engessados, com recursos rigidamente rubricados e pouca flexibilidade para responder às realidades complexas dos territórios onde atuam.

Em muitos casos, parece existir uma contradição silenciosa: defendemos a transformação social, mas seguimos operando a partir da lógica do controle. Falamos sobre fortalecimento institucional, mas financiamos apenas projetos. Queremos impacto de longo prazo, mas oferecemos recursos de curto prazo.

Talvez uma das perguntas mais importantes para o futuro da cultura de doação seja justamente esta: Estamos mais preocupados em controlar ou em transformar?

Porque transformar implica compartilhar poder. E compartilhar poder exige confiança. Fortalecer organizações sociais exige confiança suficiente para reconhecer que os territórios também produzem conhecimento, estratégia e solução. Exige compreender que comunidades não são apenas destinatárias de recursos, mas protagonistas dos processos de mudança.

Essa compreensão não é apenas filosófica. Ela também aparece em metodologias consolidadas de gestão de projetos de desenvolvimento, como o Project DPro, da PM4NGOs. Ferramentas como a Árvore de Problemas partem justamente da escuta ativa e da construção coletiva para compreender causas, efeitos e prioridades de cada realidade social. Antes de propor soluções, a metodologia convida gestores, organizações e comunidades a fazer algo cada vez mais raro em nosso tempo: ouvir. Ouvir profundamente. Ouvir sem pressupor. Ouvir reconhecendo que quem vive um problema também produz conhecimento sobre ele. Na prática, isso significa reconhecer que o território sabe.

É justamente aí que a cultura de doação encontra um de seus maiores desafios contemporâneos: reaprender a construir relações mais horizontais, colaborativas e humanas.

Os dados globais sobre generosidade mostram que a disposição para ajudar continua existindo. O World Giving Index e o World Giving Report demonstram que milhões de pessoas, em diferentes partes do mundo, seguem ajudando desconhecidos, doando recursos e dedicando tempo ao voluntariado. A generosidade permanece viva. O desafio está em transformá-la em cultura. E cultura não se constrói apenas por campanhas. Constrói-se por relações. Relações de confiança entre pessoas. Entre organizações e comunidades. Entre financiadores e territórios. Entre setores que precisam aprender a colaborar mais e competir menos.

Fortalecer a cultura de doação, antes de tudo, é um exercício de desenvolvimento humano.

Uma escolha consciente de olhar para além de nós mesmos. De levantar os olhos das telas. De reaprender a enxergar o outro. De compreender que ninguém sustenta sozinho uma sociedade justa ou um planeta sustentável.

Quando compartilhamos recursos, tempo, escuta, cuidado e poder, todos ganham. Porque, no fim, a cultura de doação nunca foi só sobre dinheiro. É sobre confiança. E confiança é, com certeza, o recurso mais valioso que uma sociedade pode cultivar.

REFERÊNCIAS

CAF (Charities Aid Foundation). World Giving Index 2024. Londres: CAF, 2024.

IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social. World Giving Index 2024: resultados e análises para o Brasil. Disponível em: https://www.idis.org.br

PM4NGOs. Project DPro – Project Management for Development Organizations. Disponível em: https://pm4ngos.org/pt-br/

PM4NGOs. Problem Tree Analysis (Árvore de Problemas). Disponível em: https://pm4ngos.org/problem-tree/

Movimento por uma Cultura de Doação. Diretrizes para a Promoção da Cultura de Doação no Brasil. Disponível em: https://www.doar.org.br

PORTAL DO IMPACTO. Inovação social: como a árvore de problemas pode ajudar as ONGs em seus projetos. Disponível em: https://www.portaldoimpacto.com/inovacao-social-como-a-arvore-de-problemas-pode-ajudar-as-ongs-em-seus-projetos

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Produzido pela equipe do Movimento por uma Cultura de Doação 2024

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