Quando a causa nasce em casa: os desafios da sucessão nas OSCs familiares
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Por Dolores Bertilla Corrêa, Superintendente Geral do Sistema Divina Providência, CEO na Perfil Mobilização de Recursos e Parcerias e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação
Muitas organizações da sociedade civil no Brasil nasceram de uma história pessoal. Uma mãe que decidiu ajudar outras mães. Um líder comunitário que transformou sua dor em ação. Uma família que, diante de um problema social, resolveu fazer algo concreto para mudar a realidade ao seu redor.
Essas iniciativas, que muitas vezes começam dentro de casa, carregam uma força extraordinária: a do propósito vivido no cotidiano. Não é raro que filhos, irmãos, sobrinhos e outras gerações acabem se envolvendo naturalmente na causa. Assim surgem as chamadas OSCs familiares, organizações cuja origem e trajetória estão profundamente conectadas à história de uma família.
Esse tipo de organização tem um enorme potencial para fortalecer a cultura de doação. Quando uma causa atravessa gerações, ela ajuda a construir algo fundamental para o campo: a cultura intergeracional de solidariedade. Crianças que crescem vendo seus pais e avós mobilizando recursos, ajudando comunidades e apoiando projetos sociais aprendem, desde cedo, que compartilhar faz parte da vida em sociedade.
Mas esse modelo também traz desafios importantes.
Um deles é a sucessão. Muitas OSCs familiares foram estruturadas a partir da liderança muito forte de seu fundador ou fundadora. Essa pessoa concentra a visão, os relacionamentos, a confiança da comunidade e, muitas vezes, até a mobilização de recursos. Quando chega o momento de passar o bastão, surge uma pergunta delicada: quem continuará a conduzir a causa?
Sem planejamento de sucessão, o risco é grande. Organizações que fizeram um trabalho relevante por décadas podem perder força quando não conseguem preparar novas lideranças ou estruturar processos que garantam continuidade.
Outro desafio está na profissionalização. Em algumas situações, a proximidade familiar pode dificultar a criação de mecanismos de governança, transparência e gestão que fortaleçam a confiança de doadores e parceiros. Construir conselhos ativos, definir papéis claros e estabelecer critérios de gestão são passos essenciais para que a causa cresça para além da família que a iniciou.
Por outro lado, quando essa transição é bem conduzida, as OSCs familiares podem se tornar exemplos poderosos de cultura de doação viva. A sucessão deixa de ser apenas uma troca de liderança e passa a ser a continuidade de um compromisso coletivo com a transformação social.
Promover a cultura de doação no Brasil também significa olhar para essas histórias e apoiar sua evolução. Valorizar o legado de quem iniciou uma causa, preparar novas gerações para liderar e fortalecer estruturas de governança são caminhos para garantir que o impacto não dependa apenas de uma pessoa, mas se torne parte de uma comunidade inteira.
Afinal, quando uma causa atravessa gerações, ela mostra algo muito importante: doar não é apenas um ato pontual. É um valor que pode ser aprendido, cultivado e transmitido ao longo da vida.






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