Meu Everest: notas sobre fronteiras, diálogo, tensão e a cultura de doação

Por Douglas Gonzalez, pai da Isabella, esposo da Daniela, um incansável ativista por uma Cultura de Doação, membro do Comitê Coordenador e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação
Peço licença aos etnógrafos de ofício para começar como eles começam: pelo registro de campo. Não levei caderno nem gravador, apenas a atenção difusa de quem circula por território alheio e uma inquietação que só mais tarde reconheci como dado de pesquisa. O que segue é uma etnografia involuntária, reconstruída a posteriori, com as imprecisões que a memória impõe e a honestidade que o tema exige.
O convite era para integrar um grupo de organizações da sociedade civil numa jornada de visitas a espaços de São Paulo, com o propósito declarado de aproximação: conhecer de perto o que essas empresas e organizações faziam, o que valorizavam e como se relacionavam com a sociedade civil. Havia, contudo, algo de expedição naquele deslocamento. Atravessávamos a cidade, em sua maioria gestores de organizações sociais de base, para adentrar outro regime de sociabilidade, com seus códigos de vestimenta, seus crachás, suas salas envidraçadas e seu vocabulário próprio. Éramos, em alguma medida, estrangeiros convidados.
Numa das paradas, chegamos a uma multinacional com operação em mais de 40 países e mais de oito mil funcionários, uma escala que se fazia sentir na arquitetura, no ritmo dos corredores, na forma protocolar das apresentações. Um dos diretores exibiu o vasto e milionário portfólio internacional e, com a mesma empolgação, apresentou a área de "responsabilidade social", ainda em construção. Foi aí que passou a pautar as organizações presentes. Com a desenvoltura de quem discorre sobre o próprio território, afirmou que não deveriam bater à porta das empresas pedindo dinheiro, porque, nesses termos, não haveria doação, sobretudo ali. O caminho adequado seria apresentar projetos aprovados em leis de incentivo, modalidade para a qual a empresa, sim, dispunha de meios. E seguiu delineando condutas e apontando equívocos, como se lhe fosse familiar à gramática cotidiana de uma organização social.
A irritação foi imediata, dessas que sobem pela garganta e que a civilidade obriga a conter. Sob ela, porém, formou-se uma convicção igualmente imediata: eu precisava conversar com aquele homem. A ocasião surgiu ao fim do dia, num encontro de encerramento que reuniu todas as organizações e espaços visitados, ambiente em que as hierarquias se afrouxam e a conversa encontra frestas. Procurei-o com uma taça de vinho e, após um brinde, disse-lhe:
- Eu queria te dizer uma coisa.
-Diga!
-Você é o meu Everest! – levantei a taça como quem propunha um brinde ao desafio.
-Como assim? - Disse o diretor, confuso, um pouco surpreso, talvez até envergonhado.
Dei uma boa risada, um gole na taça e pensei comigo: “agora ou vai ou racha”. Gragalhei dentro de mim...
A montanha e o método
Quando falei Everest, foi algo meio espontâneo de momento. Contudo, depois refletindo um pouco mais sobre o que disse, percebi que aquela montanha não é um adversário simplesmente. Ninguém a escala somente para vencê-la, mas para alcançar um ponto de onde o horizonte se amplia. A escalada exige leitura do terreno, respeito às condições do clima, aclimatação à altitude, paciência com o próprio ritmo. A pressa e a soberba são as causas mais frequentes de fracasso nessas empreitadas, e não raramente as mais fatais.
Aquele diretor encarnava, para mim, um dos desafios mais persistentes da cultura de doação no Brasil: alcançar quem está fora do campo social. Somos, enquanto campo, notavelmente competentes em dialogar entre pares. Partilhamos um repertório comum, as mesmas referências, os mesmos diagnósticos, as mesmas indignações. Contudo, nenhuma cultura floresce no circuito fechado dos já convencidos. A doação só se torna prática social disseminada quando atravessa os limites do próprio campo e encontra interlocutores que operam a partir de outras racionalidades, com outras métricas de valor e outras formas de legitimação.
A questão que me acompanhou desde então pode ser formulada de modo simples, embora não admita resposta simples: como instaurar diálogo onde a configuração parece ser de trincheira?
A fronteira como forma de sociabilidade
Boaventura de Sousa Santos oferece uma chave fecunda para essa pergunta. Em sua crítica ao paradigma da modernidade, ele percebe a fronteira não como linha divisória, mas como modo específico de estar no mundo, uma forma de sociabilidade marcada por hierarquias mais tênues, pelo uso seletivo e criativo das tradições, pela pluralidade de poderes e pela necessidade permanente de invenção. Na fronteira, nenhuma das partes dispõe de um código suficiente para regular sozinha a convivência. É preciso, por isso, criar.
Habitar a fronteira implica abdicar do conforto do monolinguismo. Exige tradução, e tradução, na acepção que Boaventura lhe atribui, é trabalho delicado: não consiste em converter o outro ao meu vocabulário, tampouco em renunciar ao meu para adotar o dele. Trata-se de identificar zonas de contato, pontos em que distintas formas de compreender o mundo podem reconhecer-se mutuamente sem que uma subsuma a outra. A tradução intercultural, tal como ele a propõe, repousa sobre uma premissa decisiva para o nosso campo: a incompletude de todo conhecimento. O saber corporativo é incompleto. O saber das organizações sociais também o é. E é precisamente essa incompletude recíproca que torna o diálogo não apenas possível, mas necessário.
Daí a noção de ecologia de saberes, que desloca o horizonte da competição entre conhecimentos para o da coexistência e da fecundação mútua. O que me incomodava na fala daquele diretor não era o saber que ela carregava, pois se tratava de um conhecimento legítimo sobre o funcionamento de uma grande corporação. Incomodava-me a pretensão de suficiência: a suposição de que aquele saber bastava para explicar e ordenar um universo que lhe era, em larga medida, exterior.
A honestidade me obriga, porém, a reconhecer que eu também chegava àquela conversa munido de certezas, e com uma versão igualmente prescritiva do que empresas deveriam fazer. Estar na fronteira implica em permear-se por trocas que se impõe a todos os que ali chegam e que extrapolam qualquer forma de controle.
Não é sobre pautar, é sobre dialogar
Se Boaventura ilumina o lugar do encontro, Paulo Freire ilumina sua ética.
Para Freire, o diálogo não é técnica de persuasão, mas postura existencial diante do outro. Na Pedagogia do Oprimido, ele sustenta que ninguém educa ninguém e que ninguém se educa isoladamente: os sujeitos se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo. O conhecimento, nessa perspectiva, não é um bem transferível de quem o detém para quem dele carece, mas algo produzido na relação, no mundo que os interlocutores compartilham e procuram compreender. A alternativa freireana é a comunicação: o encontro de sujeitos que, em copresença, se debruçam sobre um objeto comum de conhecimento.
Naquela manhã, o diretor ofereceu às organizações um manual de conduta. Se eu tivesse ido ao seu encontro para devolver-lhe um manual equivalente, prescrevendo como empresas deveriam doar, teria reproduzido exatamente o mesmo gesto, apenas com o sinal invertido. A ruptura possível estava em outro lugar: em reconhecer, com Freire, que não há saberes maiores ou menores, mas saberes diferentes, e que eu tinha tanto a aprender naquela interlocução quanto a oferecer.
Habitar a tensão
Mas é claro que este lugar da fronteira, do diálogo, do encontro de sujeitos é um lugar de muita tensão, principalmente quando as lógicas subjacentes, de certa maneira, são atritantes, por falta de melhor palavra. E isto me leva para um encontro sobre o livro “Artistas do Invisível”, nele, ouvi uma formulação que desde então me acompanha: a necessidade de “habitar as tensões das polaridades”. Não se trata de resolver a tensão, nem de dissolvê-la pela adesão a um dos polos, nem de neutralizá-la numa síntese apressada. Trata-se de habitá-la, de fazer morada nesse espaço de atrito em que forças opostas se tensionam, suportando os extremos sem capitular a nenhum deles.
Aí reside, simultaneamente, a potência e a dificuldade de todo o processo. Ser tocado implica vulnerabilidade, e a vulnerabilidade é frequentemente percebida como perda. Mas é apenas na permeabilidade que o diálogo se efetiva. Muros não dialogam. Membranas, sim.
Quase duas horas depois
Depois da primeira taça, conversamos por quase duas horas ou mais.
Discorremos sobre doação, sobre os dados da doação, sobre o funcionamento da filantropia, sobre suas relações com a sociedade, sobre a importância de tomá-la como objeto de atenção estratégica, e não como apêndice ou concessão. A conversa percorreu territórios que, horas antes, pareciam inacessíveis.
Algo se deslocou. O diretor se interessou, e a esse encontro seguiram-se outros. Dois almoços para ser mais exato. As conversas continuam, porque o diálogo não é evento, mas processo, e exige constância. Montanhas dessa natureza não se escalam numa única tarde: monta-se acampamento, aguarda-se a abertura do tempo, avança-se mais um trecho.
Não presumo que ele tenha revisto todas as suas posições. Eu tampouco revi todas as minhas. Mas ambos saímos daquela fronteira em condição distinta daquela em que entramos. E é desse tipo de deslocamento, sutil e acumulativo, que as culturas são enraizadas.
Onde doar se tornou cultura
O manifesto do Movimento começa por um sonho: uma sociedade em que as pessoas doam generosamente, em que causas e organizações recebem os recursos necessários para cumprir seu papel e compor uma sociedade civil organizada, vibrante, potente e autônoma, fortalecendo a democracia. Uma sociedade em que cada cidadão tem consciência de seu papel social e da relevância de sua doação.
Cultura, contudo, não se institui por decreto. Tece-se lentamente, encontro a encontro, num saber de fronteira, fecundo, em constante diálogo, entre sujeitos, que habitam as tensões das polaridades. Somente assim a doação deixará de ser gesto excepcional para tornar-se prática e hábito social. E somente assim as organizações receberão os recursos de que necessitam para realizar seus objetivos sociais e exercer o cuidado que lhes cabe na vida coletiva.
Aquele diretor foi o meu Everest. Cada um de nós tem o seu, seja um gestor público, um investidor social cético ou um executivo que só reconhece a linguagem do incentivo fiscal.
Não se trata de derrotá-los, mas de aprender a subirmos as montanhas uns dos outros, contemplarmos novos horizontes e vislumbrarmos um futuro possível. Uma sociedade em que doar se tornou cultura.






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