Alocando Capital para a Transformação
- 13 de abr.
- 4 min de leitura

PorĀ HeloĆsa Garcia da Mota, engenheira ambiental, comunicadora, lĆder de captação de recursos na Climate Ventures e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação
Nos Ćŗltimos dois anos, grande parte do terceiro setor do Brasil parou, ou melhor dizendo, se movimentou, para falar de clima. Com a expectativa da chegada da COP30 em BelĆ©m, a primeira COP em anos num paĆs democrĆ”tico acontecendo na AmazĆ“nia, um dos maiores sĆmbolos da proteção e conservação ambiental do mundo, a pauta climĆ”tica finalmente encontrou espaƧo para se conectar com inĆŗmeras outras pautas sociais e econĆ“micas, inspirando ambiciosas agendas de aƧƵes (agendas estas que foram um dos maiores legados da presidĆŖncia brasileira para a ConferĆŖncia das Partes). Do meu lado, o clima sempre foi uma pauta direcionadora da minha carreira. Em 2007, em meu primeiro emprego, eu aprendi sobre economia e instrumentos financeiros, e tambĆ©m indicadores de sustentabilidade, para trabalhar com um embrionĆ”rio mercado de carbono que comeƧava a aparecer no Brasil, e daĆ em diante, a conexĆ£o de pautas climĆ”ticas com finanƧas nunca deixou de fazer parte das minhas discussƵes. E Ć© nessa toada que escrevo este texto para o Movimento por uma Cultura de Doação, para falar de como a evolução da pauta de finanƧas climĆ”ticas e investimento de impacto podem conectar filantropia, mercados e atĆ© doaƧƵes pessoas fĆsicas, e quem sabe, contar novas histórias que possam desconstruir alguns paradigmas sobre doaƧƵes e filantropia no Brasil, e no mundo.Ā
JĆ” em alguns artigos que lemos aqui neste canal vemos como eventos climĆ”ticos extremos foram impulsionadores de grandes volumes de doaƧƵes no Brasil, como por exemplo, a tragĆ©dia do Rio Grande do Sul. Hoje, inclusive, na discussĆ£o sobre adaptação e financiamento climĆ”tico, vemos vĆ”rios editais disponibilizando recursos para melhor compreensĆ£o de como municĆpios, estados e organizaƧƵes podem acessar recursos de diferentes tipos de fundos para nĆ£o apenas reconstrução pós eventos climĆ”ticos, mas tambĆ©m para mitigação e implementação de aƧƵes que possam reduzir os prejuĆzos ou atĆ© evitĆ”-los. E sim, existem inĆŗmeros instrumentos para financiamento climĆ”tico no Brasil e no mundo, desde linhas verdes do BNDES (como o Fundo Clima, mas nĆ£o apenas) atĆ© o Green Climate Fund da UNFCCC. Ainda assim, o ecossistema provoca a busca de instrumentos inovadores para garantirmos impacto e transformaƧƵes sistĆŖmicas necessĆ”rias, e, grande parte das vezes, o termoĀ blended financeĀ vem Ć tona e a inovação estĆ” justamente na combinação de fontes de capital filantrópico atuando como capital catalĆtico em mecanismos que reduzem os riscos para o mercado tradicional. Mas o que realmente chama atenção para alĆ©m do conceito deĀ blended financeĀ Ć©, ao ver o que funciona na prĆ”tica, atentarmos para a possibilidade de conexĆ£o de atores, com diferentes papĆ©is e com objetivos assertivos e compartilhados.Ā
A ideia Ć© inovadora e vem sendo operadaĀ e testada hĆ” anos por organizaƧƵes como a Sitawi, que capta dinheiro de diferentes fontes (filantropias e investidores tradicionais) para nĆ£o apenas modelos de blended finance, mas tambĆ©m emprĆ©stimos para negócios de impacto e uma plataforma de investimento coletivo que convida pessoas a investirem em projetos que geram, alĆ©m de retorno financeiro, impacto socioambiental. JĆ” a Vox Capital, uma venture capital de impacto que capta dinheiro de investidores para negócios e startups de impacto e que, embora nĆ£o seja o foco, tambĆ©m atuam com capital filantrópico com potencial catalĆtico para gerar retorno financeiro. Um exemplo mais recente conduzido pela Violet Capital com o Instituto ArapyaĆŗ, um mecanismo deĀ blended financeĀ criado para investir em projetos da bioeconomia (comeƧando pela cadeia do cacau), onde o capital filantrópico Ć© central paraĀ first lossĀ (ou seja, entra como capital de risco inicial, aceita menor retorno e absorve perdas) atraindo investidores mais ātradicionaisā e viabilizando negócios que nĆ£o seriam possĆveis. Na COP30, o Laboratório de Inovação em JustiƧa ClimĆ”tica, liderado pela Climate Ventures, lanƧou junto Ć Sitawi um instrumento financeiro voltado a apoiar projetos que entregam impacto social e para o clima, voltado a apoiar fundos comunitĆ”rios e que busca capital filantrópico para sua implementação. Se voltarmos ainda mais no tempo, temos o exemplo do fundo āSalvando Vidasā do BNDES, criado para financiamento coletivo onde para cada R$1 doado por um doador, o BNDES adicionava mais R$1 real, mobilizando R$140,00 milhƵes de reais. Estas sĆ£o apenas algumas iniciativas que mostram a importĆ¢ncia da ampliação do diĆ”logo entre diferentes atores para que a cultura da filantropia e da doação possa ser coordenada para gerar transformação sistĆŖmica.Ā
Nas Ćŗltimas semanas, um relatório lanƧado pela Nature Finance mostrou que para cada US$1 que financia a conservação da natureza, US$30 ainda Ć© alocado para atividades com potencial de destruĆ-la. No meu primeiro texto para o Vozes, em 2025, eu trouxe o conceito de Filantropia 4.0Ā de Otto Scharmer e as provocaƧƵes de Bayo Akomolafe como um dos meus principais desejos para a cultura de doação. Hoje eu convido tambĆ©m a leitura do livro Adventure Finance de Aunnie Patton, que traz tambĆ©m uma reflexĆ£o sobre modelos, estrutura e processos que direcionam o investimento em impacto (tentando explorar melhor os investimentos que ficam entre a filantropia - retorno zero - e o investimento tradicional -mĆ”ximo de retorno possĆvel), deslocando assim audaciosamente e ambiciosamente o olhar do risco para o investidor para o risco de nĆ£o realizarmos as aƧƵes necessĆ”rias para a garantia do nosso futuro. Quanto mais sou convidada a desaprender oĀ status quo, mais aprendo que a resposta deve estar mesmo muito próxima do coletivo, da colaboração e no diĆ”logo e na criação coordenada entre todos os atores possĆveis envolvidos nos desafios socioambientais e econĆ“micos que enfrentamos;Ā e assim, posso dizer que acredito que a valorização da cultura de doação tambĆ©m deve se aproximar e engajar os ambientes que jĆ” foram muitas vezes considerados hostis, como Ć© o caso do mercado financeiro.Ā


