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Dignidade narrativa: o pilar invisível de uma cultura de doação

  • há 3 dias
  • 3 min de leitura
Children Nature Network, Domínio Público
Children Nature Network, Domínio Público

Por Aline Khouri, comunicadora, editora na TETO Brasil e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação. Atua com comunicação de causas e temas científicos e se interessa pelas relações entre narrativas, poder e transformação social.



Durante a graduação, um livro marcou especialmente minha trajetória: Diante da dor dos outros, de Susan Sontag. Ao refletir sobre o que significa olhar para imagens do sofrimento alheio, a autora me fez pensar não apenas sobre aquilo que vemos, mas também sobre a posição que ocupamos diante da dor de outras pessoas. Essa questão ainda me inquieta quando penso sobre a comunicação de causas socioambientais e, inevitavelmente, nasce a pergunta: Quando uma história de sofrimento é usada para sensibilizar, mobilizar pessoas ou incentivar uma doação, o que acontece com a pessoa que está no centro dela?


O tema ganha novos contornos em meio a acontecimentos recentes. O governo de Burkina Faso aprovou um decreto para regulamentar as intervenções humanitárias no país. Entre as novas regras, está a proibição de exibir imagens de pessoas em situação de vulnerabilidade ao lado das doações recebidas por ONGs e agências humanitárias. A medida nos convida a refletir sobre as práticas e limites da comunicação de causas que dissemina imagens apelativas em nome da captação de recursos. 


É claro que comunicar situações de vulnerabilidade é necessário. O problema não está em mostrar a dor, mas em transformá-la na identidade de quem a enfrenta. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Save the Children. Intitulado The people in the pictures - Vital perspectives on Save the Children’s image making (As pessoas nas imagens - Perspectivas fundamentais sobre a produção de imagens da Save the Children), o objetivo do estudo foi compreender a percepção das comunidades atendidas sobre o modo de produção e disseminação de suas imagens. No documento, é possível ler sobre uma jovem refugiada síria  que afirmou “Não quero ser um objeto”. 


Para ela, a câmera nas mãos de outra pessoa poderia transformá-la em objeto de uma narrativa que iria congelar a dor como sua única identidade. Ao reivindicar ser vista para além da situação de vulnerabilidade que atravessava, a jovem explicitou um aspecto essencial da comunicação de causas: a dignidade das pessoas retratadas. Esse elemento precisa fazer parte da história que contamos sobre elas. 


O que significa colocar essa dignidade no centro da comunicação (e, aqui, falo também de histórias, não apenas de imagens)? O conceito de dignified storytelling (narrativas dignificadas, em tradução livre) elucida isso ao reforçar que as pessoas não têm uma única história, mas são multidimensionais.  Elas possuem personalidades, talentos, papéis sociais (pais, profissionais, líderes etc), opiniões e uma capacidade de agência que ultrapassa o quadro de pobreza ou crise que enfrentam no momento. 


Quando a Save the Children entrevistou outros indivíduos, ficou claro que eles sabiam por que era preciso retratar suas dores. No entanto, não queriam ser percebidos apenas por isso e manifestaram o desejo de narrativas mais equilibradas. Isso dialoga diretamente com a cultura de doação e mostra que a forma com a qual contamos história exerce um papel importante na relação entre quem doa e quem recebe.  Não basta perguntar se uma campanha consegue gerar doações. Precisamos refletir o imaginário que ela produz sobre solidariedade para atingir esses resultados.


Se as narrativas que contamos reforçam estereótipos, elas podem até atrair recursos no curto prazo, mas falham em construir o senso de solidariedade e conexão humana necessário para uma filantropia transformadora. Quem recebe uma doação não é apenas destinatário de um recurso, mas sujeito de direitos, conhecimentos, escolhas e histórias próprias. A comunicação pode contribuir para tornar essa relação mais horizontal ao mostrar pessoas e comunidades para além daquilo que lhes falta.  


A comunicação também participa da cultura de doação que queremos construir. Se queremos relações de solidariedade baseadas em respeito e reconhecimento, precisamos questionar as narrativas que fazem da vulnerabilidade uma identidade. Uma cultura de doação verdadeiramente transformadora não deveria precisar desumanizar alguém para despertar a nossa humanidade. 


Declaração sobre uso de IA: Utilizei IA para extrair dados da pesquisa mencionada no texto.



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Produzido pela equipe do Movimento por uma Cultura de Doação 2024

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