As Raízes Invisíveis da Confiança
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Por Sarah Siqueira, economista, fundadora e diretora executiva da organização Rampa, integrante do Movimento por uma Cultura de Doação desde 2021.
Dias atrás Joana Mortari, uma das cofundadoras do MCD, compartilhou um vídeo da Folha de São Paulo sobre confiança. Nele, a terapeuta Esther Perel resumiu algo simples, mas incômodo: confiar é conseguir viver com o que não se sabe. Fazendo referência à pesquisadora Rachel Botsman, que estuda confiança, ela a descreve como um engajamento ativo com o desconhecido, não uma garantia. Nesse contexto, quando alguém sente que precisa saber não está mais confiando, estaria vigiando, controlando. E isso não constrói confiança. Confiar, para as duas, não é eliminar a incerteza, é decidir agir mesmo com ela.
Fico pensando em como essas ideias se aplicam à cultura de doação quando para mobilizar recursos para mudanças estruturais. É praxe do terceiro setor defender a transparência para a construção de confiança. Concordo muito com essa prática, mas colocamos tantos outros fatores na conta da "transparência". Muitas vezes seria mesmo necessário agir com coragem em meio a incerteza.
Pode ser mais custoso, mas é aí que vemos a diferença, profunda e estrutural, que fazem os projetos que organicamente, ainda que consciente, dedicam tempo antes de agir. Mesmo na insegurança de se lançar ao desconhecido, essa relação entre as partes floresce revelando transformações que se sustentam ao longo do tempo. São aqueles projetos que dedicam tempo em processos de escuta, construção coletiva, colaboração entre diferentes atores.
Não só com reuniões, mas também visitas a campo, por exemplo. Vivências em que os detentores de recursos a serem doados podem experimentar compreender melhor a profundidade e complexidade que ações com ambições sistêmicas requerem no solo do território. E por sua vez, que o território também tenha espaço seguro para dialogar e compreender a complexidade das dinâmicas relacionais que influenciam as decisões de gestão da alocação de recursos filantropia. Claro, sempre com a premissa de proteger e cuidar do elo mais fraco na relação. Claro, sempre com a premissa de proteger e cuidar do elo mais fraco na relação¹.
Esse deslocamento no tempo e no espaço empreendido pelas partes, quando movido por solidariedade, compromisso e respeito mútuo, cria mais alinhamento sobre o contexto e as variáveis que podem definir o sucesso, ou não, de uma iniciativa. Ele funda dimensões da confiança que vão além da transparência em relatórios e dados digitais: conhecer as competências do time, entender como liderança e equipe atuam juntas, reconhecer que resultados consistentes levam anos para se sustentar. Fortalece também o respeito mútuo, a visão e os valores compartilhados entre as partes, além de criar uma linguagem comum que faz com que a gestão de desafios promova engajamento e não o contrário.
Em se tratando de mudança sistêmica, quem sabe a qualidade na cultura de doação seja mais relevante do que a quantidade de projetos apoiados. O que me faz lembrar das florestas, e da qualidade, por exemplo, da madeira de suas árvores.
Suzanne Simard, em seu livro "A Árvore Mãe", explica a importância das árvores centenárias e milenares, as chamadas árvores-mães, para a sobrevivência da floresta. Elas são em menor quantidade que as outras, mas a qualidade da sua intervenção no bem-estar da floresta é essencial e o valor de sua madeira é alto no mercado. As árvores-mães atuam como hubs, desempenhando um papel vital no cuidado de milhares de outras árvores que podem estar a mais de dez quilômetros de distância de suas raízes. Com ajuda dos fungos, por meio de estímulos elétricos e bioquímicos, elas se comunicam, trocam informações sobre ameaças e criam estratégias de sobrevivência. Até antibióticos as árvores-mães produzem e conseguem levá-los às arvores doentes, podendo adotar árvores órfãs caso a árvore responsável pela menor não seja curada. Se essas longevas árvores são removidas em nome de um interesse de mercado, não só a biodiversidade se perde, mas a resiliência da floresta em lidar com as mudanças climáticas é afetada.
No nosso caso, para a cultura de doação, alocar recursos em iniciativas que atuam por mudança sistêmica é vital. Seja através de coalizões ou através das organizações intermediárias, aquelas organizações que representam muitas outras sustentam uma teia invisível, como as árvores-mães e suas raízes. Tal teia viabiliza condições para, por exemplo, a sociedade ter capacidade estrutural de lidar com as mudanças de um mundo em crise.
Eu sei, não é sempre que se tem as condições para dedicar tempo e energia no que se considera o “pré-projeto”, ou fases de construção de relacionamento baseado em confiança que antecedem a uma doação. Sei também que é inviável agir assim quando se quer ações em escala. Mas a minha fala vai pra você que entende escala não apenas como quantidade, mas como profundidade e sustentabilidade de transformação sistêmica; não só nos números para o próximo relatório.
Meu convite é celebrarmos que podemos nos deslocar por territórios para ganhar repertório e deixar que nossos corpos criem raízes onde a vida pode ser criada. Meu convite é que nossos olhos vejam a beleza dos desafios enfrentados e nos lancem a um encontro em que a partilha convida outros à mesa, que os nossos pés deem um passo no desconhecido e encontrem solo firme para o labor de nossas mãos ser frutífero. Meu convite é para a construção de uma cultura de doação baseada na confiança que transforma sistêmica e cria futuros mais prósperos a favor da vida.
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¹ Por exemplo, garantir recursos mínimos como condições para que a parte tenha como alocar seu tempo e disponibilidade na dedicação dessa empreitada relacional. O compromisso intencional dá o tom da relação, aumentando as chances de se construir confiança. Povos-floresta, como os indígenas, nos ensinam a praticar essa confiança com gratidão. Em algumas etnias, quando uma pessoa de fora chega à comunidade, é necessário levar presentes: é o ponto de partida para tantas trocas, aprendizados e celebrações que se darão.






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