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Como queremos monitorar os sonhos que temos para melhorar o mundo?

  • há 4 dias
  • 4 min de leitura
Crédito imagem: vectorjuice - Magnific.com
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Por Heloísa Garcia da Mota, engenheira ambiental, comunicadora e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação


Quando me pego falando com quem está dando o primeiro passo na busca por mobilização de recursos, me ouço repetir a importância da narrativa: Qual problema você quer resolver? E qual será o impacto? Que resultado a organização irá entregar? Medir o impacto e apresentar indicadores de resultados é muitas vezes um dos principais fatores para conseguir ou não uma doação ou financiamento. No entanto, em diferentes fóruns sobre cultura de doação, não é raro nos depararmos com questionamentos sobre o quão difícil é, nos tempos de hoje, conseguir mobilizar recursos para organizações que ainda estão se estruturando, que são menores ou ainda pouco instrumentalizadas. E um dos principais instrumentos que fazem falta está relacionado à forma como a organização mede seu impacto. Eu sou uma grande fã de um vídeo do TEDX sobre OKRs (tão corporativo quanto elucidativo), que fala da importância de escolhermos os objetivos e resultados corretos para a gestão de um projeto ou uma organização. E foi essa mistura de informações não tão coesas que me instigaram a escrever este texto que começa com uma provocação: quando falamos sobre medir impacto, temos clareza sobre exatamente o que deveríamos monitorar para ter certeza de que estamos chegando lá? 

Eu sempre me considerei uma entusiasta de processos de planejamento que começam pelo começo (algo nem sempre comum no setor privado ou no terceiro setor), pela definição de uma visão. Uma visão clara, assertiva e que represente exatamente onde queremos chegar. Definir uma visão para organizações que buscam impacto socioambiental poderia ser uma delícia, mas é, na maioria das vezes, um processo exaustivo. Uma das grandes dores quando sonhamos em mudar o mundo é essa sensação persistente de que efetivamente tudo poderia mudar para melhor, e a nossa energia seria de fato bem investida se conseguíssemos recursos e pessoas o suficiente para fazer tudo. Mas tudo é muita coisa, e por isso, todo sonho de mudança, para ser bem sonhado, deveria começar com uma boa escolha. Felizmente, existem boas metodologias para que não precisemos dar estes passos sozinhos e começando do zero, eu sempre indico os recursos do Mobilisation Lab, que combinam design thinking com impacto social. 

A boa escolha de uma visão é apenas o início de todos os nossos outros problemas, pois logo que sabemos aonde queremos chegar, nos perguntamos como saberemos que estamos no caminho certo. Aqui, podemos lançar mão de uma grande variedade de instrumentos de medição e acompanhamento de performance de organizações e projetos, desde os famosos KPIs, Key Results e métodos muito eficientes como Gannt e Kanban. De todas as maneiras, a aplicação desses instrumentos não necessariamente garantem que vamos ser capazes de medir aqueles resultados que realmente são capazes de mudar os ponteiros da situação e do contexto, e que nos levariam a atingir a nossa visão. Esse processo exige recurso, muitas mentes pensantes, ciência, coragem e ousadia.

E pensando em trazer referências que desafiam um pouco a lógica mais tradicional na gestão de projetos, trago aqui uma definição que li recentemente num livro que deveria ser lido por todos os apaixonados por planejamento para transformação social  System Thinking for Social Change, do David Stroh. Neste livro, o autor menciona uma citação da famosa cientista ambiental, escritora e pensadora Donella Meadows sobre um sistema ser um conjunto de elementos que opera em conjunto para atingir algo, enquanto a lógica do pensar de forma sistêmica busca organizar esses elementos para o atingimento de um propósito desejável. A definição, que parece óbvia, pode mudar completamente a forma como implementamos um projeto e medimos seus resultados, e a forma como medimos os nossos resultados é o que muda por completo a escolha do que iremos fazer, como iremos fazer e até questiona a certeza de que estamos ou não fazendo a coisa certa. Eu também já mencionei no Vozes outros dois autores que provocam um olhar diferenciado para mudança sistêmica, em especial no âmbito da filantropia: Bayo Akomolafe e Otto Scharmer, com sua visão de parafilantropia e Filantropia 4.0, respectivamente. 

Ainda que com tantas referências, essa discussão ainda pode se tornar superficial quando falamos do nosso sonho de transformar o mundo. Infelizmente, poucas organizações hoje medem o tempo que estão gastando parando para pensar e repensar os caminhos e suas jornadas, seja por falta de tempo, recursos, ou até mesmo porque acreditam que seu sistema já opera da forma ideal. Diante disso, raramente se questionam se estão fazendo a entrega “certa”, aquela que nos indica de que estamos indo ao encontro daquilo que almejamos deixar de legado. Quantas vezes paramos para pensar se avaliar a quantidade de pessoas impactadas por um treinamento ou a quantidade de CO2 evitado por um ação de conservação é realmente a melhor forma de medir o impacto daquilo que queremos entregar? Certamente isso ajudaria qualquer organização a contar ainda melhores histórias, captar ainda mais recursos e ampliar cada vez mais seu impacto. Talvez considerar a porcentagem do tempo investido para pensar juntos, de forma coordenada e intencional, sobre o monitoramento de nossos projetos seja um grandioso KPI. E em si só, este é um grande sonho quando olhamos para a realidade dos projetos e organizações que atuam com as pautas sociais e ambientais no país. Certamente não é falta de desejo ou de disposição, mas o enfrentamento de um contexto desafiador. Mesmo assim, não custa a gente continuar sonhando em mudar também essa realidade. Isso é desenvolvimento institucional, e o desenvolvimento institucional, acredito, tem também o poder de mudar o mundo, e merece investimento. 

 
 
 

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Produzido pela equipe do Movimento por uma Cultura de Doação 2024

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