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Family Office para Famílias Comuns

Por Renato Orozco, é diretor na Idealist.org/pt para os Países de Língua Portuguesa e diretor-fundador da Associação Nossa Cidade, gestora dos Fundos Regenerativos Brumadinho e Grande BH, também é integrante do Movimento por uma Cultura de Doação.


No Brasil, existem aproximadamente 150 “family offices”, escritórios que se dedicam à gestão patrimonial de uma ou mais famílias multimilionárias, cuidando de seus bens e investimentos. São equipes que administram valores entre R$50 milhões até mais de R$1 bilhão. Para metade das famílias/escritórios, além de comprar e vender imóveis, ações e obras de artes, também estão envolvidas com filantropia de forma regular e estruturada. 


Para as famílias com patrimônio mais modesto, não vale a pena contratar um escritório inteiro para fazer esse trabalho. Grande parte das famílias brasileiras contam só consigo mesmo para tomarem boas decisões a respeito de suas economias. São poucas as famílias com milhões disponíveis para investir em solidariedade e ajudar ao próximo, mas somos mais de 90 milhões de famílias em todo o país e se a prática de doação regular acontecesse, poderíamos fazer mais do que todos os family offices fazem juntos.


O que falta para isso acontecer? Uma transformação individual e coletiva que nos torne mais generosos.


Não quero romantizar a situação: ser uma pessoa mais generosa não é fácil. Desde pequenos aprendemos a acumular e ouvimos sobre o valor de “ganhar” dinheiro, poucas vezes sobre “doar”. Dizem que educação vem de berço. E se filantropia fosse parte da vida das famílias?


Sim, embora não tenha milhões na conta bancária, tenho uma family office lá em casa, composto por mim, minha esposa e sogra, e periodicamente conversamos sobre como fazer da doação algo regular em nossas vidas. A seguir listo algumas práticas que têm me ajudado a mudar minha relação com o dinheiro e doação. 


1 - Crie um family office em sua sala de estar

Conversar sobre dinheiro com sua família é uma boa prática. Além de decidir juntos sobre gastos domésticos, economias e investimentos, adicione nessa conversa qual a política que querem ter em relação à doações. 


Lá no meu family office conversamos sobre aumentar nossa contribuição na igreja ou enviar dinheiro para um amigo que esteja passando por dificuldades. Cada um apresenta as organizações que gostaríamos de apoiar e provisionamos o recurso para tal. Essas conversas têm sido bem especiais em nos fazer refletir sobre nós mesmos, nossos padrões, vontades e bloqueios. Tenho percebido que fazer isso em família tem nos tornado mais livres e generosos.


2 - Defina seu ponto de equilíbrio

O ponto de equilíbrio é o valor que não é nem tão pequeno que seria algo insignificante para você (por exemplo, uma esmola) e nem algo grande demais a ponto de criar uma situação negativa (por exemplo, de não conseguir pagar o aluguel no fim do mês).


Ao se ver diante de uma vontade de doar, reflita sobre onde está o seu ponto de equilíbrio. Peça aos outros membros da sua família que façam o mesmo. Daí compartilhem o que pensaram e o que os levaram a escolher esses números, buscando formar um entendimento coletivo de qual seria o ponto de equilíbrio da família para essa doação. 


3 - Participe de um círculo de doação

Um círculo de doação nada mais é que um grupo de pessoas que juntam o seu dinheiro para fazer doações maiores do que poderiam fazer individualmente para uma causa. De 2015 a 2019, participei do círculo de doação da Awesome Foundation para projetos em Minas Gerais (Recomendo! Veja como começar um capítulo em sua cidade aqui.). Cada um dos dez integrantes doava R$150 por mês e assim tínhamos R$1500 para dar, sem pedir nada em troca, para um projeto que fosse incrível e acontecesse em Minas Gerais.


Financiamos torneio de robóticarádio comunitáriaarte na periferiacoletivo rastafari, tecnologia para inclusãomovimento LGBTQIAPN+, entre outros, só para mencionar os meus favoritos. O processo de avaliação incluía longas reuniões em botecos da capital mineira para discutirmos e selecionarmos os projetos a serem contemplados. O melhor momento de todos era quando ligávamos ao proponente para avisar da aprovação do projeto. Conhecer pessoas tão especiais e poder dar um empurrãozinho em suas ideias foi uma experiência indescritível. 


4 - Crie um portfólio de doações recorrentes

Da mesma forma que tenho um portfólio de investimentos diversificados que acompanho, gosto também de ter um portfólio de causas que contribuo de forma recorrente. De tempos em tempos posso decidir interromper um e começar a apoiar outro de acordo com o que faz mais sentido para mim no momento. Por exemplo, neste momento fazemos contribuições para o Movimento por uma Cultura de DoaçãoDragon DreamingAssociação Nossa CidadeFundamigRiver NY e Greenpeace.


6 - Se ligue na generosidade cotidiana!

Para além das doações às instituições, pequenos gestos de gentileza no dia a dia como deixar uma boa gorjeta sempre que pegar um Uber, dar bons presentes ou cotidianamente pagar a conta do restaurante quando for comer com amigos também conta.


Na verdade, esse tipo de filantropia tem um efeito contagiante na disposição das pessoas que recebem em também serem mais generosas. O valor “investido” nessa generosidade se multiplica pois o gesto conta além do dinheiro.


Recentemente trouxe um Iphone, uma GoPro e um computador para três ativistas comunitários que muito me inspiram. Para além do que esses equipamentos podem ajudá-los em suas atividades, o gesto de doar comunica o quanto eu os admiro e valorizo o trabalho que fazem. Quero crer que receber esses presentes será mais valioso que os itens em si, por trazer consigo também um reconhecimento pelo trabalho que desempenham.


7 - Grandes contribuições

De tempos em tempos algo exige que saiamos de nossa zona de conforto e façamos uma doação fora do nosso normal. Para minha família, essa contribuição será da ordem dos 4 dígitos, mas para outras pode ser um valor menor ou maior.


Talvez um amigo que tenha sofrido um acidente de carro precise de uma contribuição desse valor. Ou talvez sua igreja ou uma entidade social da qual você já tenha uma relação formada esteja fazendo uma campanha para aquisição de uma sede própria. Ou talvez um desastre natural tenha te sensibilizado tanto que um valor menor não faria sentido.


Em quaisquer dos casos, da mesma forma que você deveria ter uma reserva financeira para emergências, talvez seja interessante ter um montante reservado para grandes doações. 


8 - Voluntariado também é uma doação

Finalmente, a doação de tempo e talentos também é filantropia! E que legal quando isso também é fruto de uma decisão da família em dedicar tempo conjuntamente a alguma atividade. Esse ritual familiar de servir juntos como voluntários em uma instituição de caridade ou participar de um mutirão de limpeza pode ter um efeito muito positivo nas relações dentro da própria família.


Lembre-se que fazer o bem costuma auferir mais benefício para quem ajuda até mais do que para quem é ajudado. A doação é uma daquelas coisas estranhas que quanto mais se dá, mais se ganha. 


Então, bora criar nossas 90 milhões de family offices e assim transformar para melhor o mundo em que vivemos!


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