Passar a sacolinha espanta doador e não engaja
- há 4 dias
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Por Dolores Bertilla Corrêa, Superintende Geral do Sistema Divina Providência, CEA na Perfil Mobilização de Recursos e Parcerias, e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação
Por muito tempo, falar de doação no Brasil foi quase sinônimo de improviso. A cena é conhecida: alguém apresenta uma causa, faz um apelo emocionado e, ao final, “passa a sacolinha”. Quem puder ajuda. Quem não puder, agradece e segue. O problema é que esse modelo, além de limitado, já não responde mais às expectativas de quem deseja contribuir de forma consciente.
A cultura de doação amadureceu – ou pelo menos deveria ter amadurecido. Doar hoje não é apenas um gesto de solidariedade; é também uma decisão informada. Cada vez mais pessoas querem entender o que muda de fato quando doam. Qual problema está sendo enfrentado? Quantas pessoas são beneficiadas? Que transformação social está acontecendo? Qual impacto econômico essa iniciativa gera para a comunidade?
Quando essas respostas não aparecem, a confiança diminui. E sem confiança não há cultura de doação forte.
O terceiro setor brasileiro realiza um trabalho gigantesco. Em todas as regiões do país há organizações dedicadas a resolver problemas complexos: educação, pobreza, saúde, meio ambiente, inclusão produtiva. No entanto, muitas dessas iniciativas ainda têm dificuldade de demonstrar, de forma clara e sistemática, seus indicadores de transformação social e impacto econômico.
Sem dados, o esforço fica invisível.
E quando o impacto não é apresentado de forma objetiva, cria-se um ruído perigoso: o de que as organizações fazem muito, mas não conseguem provar o que entregam. Isso alimenta um ciclo que enfraquece o campo – menos confiança gera menos doação, e menos doação dificulta ainda mais a estruturação das organizações.
Em alguns casos, ainda carregamos um certo complexo de vira-lata institucional. Existe quem acredite que medir impacto, apresentar indicadores e falar de resultados é algo reservado apenas a grandes fundações ou organizações internacionais. Não é. Transparência e evidência de impacto são condições básicas para fortalecer a relação com doadores, parceiros e sociedade.
Promover a cultura de doação no Brasil passa necessariamente por mudar essa lógica.
Mais do que pedir apoio, precisamos mostrar transformação. Mais do que sensibilizar, precisamos demonstrar resultados. Mais do que passar a sacolinha, precisamos apresentar evidências de que cada real doado gera valor social, econômico e humano.
Quando organizações conseguem traduzir suas ações em impacto concreto, algo poderoso acontece: a doação deixa de ser um gesto pontual e passa a ser um investimento social contínuo.
Fortalecer a cultura de doação é também fortalecer a capacidade do terceiro setor de comunicar o valor que gera. Porque confiança não nasce apenas da boa intenção. Ela nasce, sobretudo, da combinação entre propósito, transparência e resultado.






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